Projeto Ockham

N° 7 • 22 Mai 05

A Incrível Garota com Visão de Raios-X
Seu nome é Natasha. Ela não veio de Kripton e sim da Rússsia mas também alega poder enxergar através da matéria, especificamente através dos tecidos humanos. Em vez de combater o crime, Natasha usa seus poderes para diagnosticar doenças no vilarejo de Saransk, onde cobra o equivalente a 13 dólares por consulta, uma quantia razoável para a região. E em vez de esconder-se por trás das lentes de Clark Kent, Natasha vem angariando fama internacional como A Garota com Visão de Raios-X.

Convidado em 2004 pelo Discovery Channel, o CSICOP (Comitee for Scientific Investigation of Claims of Paranormal) aceitou testar os poderes de Natasha. Sete voluntários foram escolhidos, cada um deles com um problema médico específico. Natasha recebeu sete cartões descrevendo a condição médica de cada caso e um desenho representando a anormalidade que deveria ser capaz de ver. Os voluntários foram então dispostos em um semicírculo diante de Natasha que deveria então relacionar cada doença ao paciente correspondente. Embora a mãe de Natasha afirme que o índice de acertos de sua filha é de 100%, todos concordaram que Natasha deveria acertar no mínimo 5 dos 7 resultados para ser “aprovada”. Ao fim do teste Natasha conseguiu relacionar corretamente as doenças de apenas 4 dos sete pacientes, um a menos do que o combinado, o que certamente frustrou os fãs da menina, mas deixou uma pulga atrás da orelha até mesmo de alguns céticos: não seriam 4 acertos um número suficientemente alto? afinal ela acertou mais do errou, não?

A verdade é que o número de acertos não diz tudo sobre o teste de Natasha. Em parte porque os poderes alegados por ela são bem singulares. Natasha diz que pode enxergar os orgãos através das roupas e da pele (e até mesmo enxergar a nível celular com um pouco mais de concentração), mas não pode ver através de um fino tecido se ele encobrir completamente o paciente, o que tinha sido a primeira opção dos pesquisadores durante o planejamento do experimento. Ou seja, ela precisa ver o paciente para conseguir realizar o diagnóstico, o que, muitas vezes, é tudo o que precisa um bom clínico sem visão de raios-x. Como o teste não pôde ser realizado às cegas como planejado, acabaram pesando sérias dúvidas sobre o modo como Natasha obteve suas respostas. Por exemplo, um dos pacientes era um homem sem qualquer problema médico e Natasha conseguiu determiná-lo corretamente. Acontece que este era justamente o mais jovem e de melhor aparência física dos voluntários, aquele que seria a escolha óbvia para alguém que chutasse a resposta. Outro ponto levantado pelos pesquisadores é que Natasha, sua família e amigos chegaram ao local do teste antes do combinado, quando os voluntários ainda se reuniam, o que pode ter permitido que tenham visto o paciente com um implante no joelho (anormalidade que ela acertou durante o teste) subindo as escadas com óbvia dificuldade. Também é um tanto estranho que, a despeito de seus poderes, Natasha tenha demorado 4 horas para concluir o teste, mesmo sabendo exatamente o que deveria ver, e 1 hora inteira para descobrir o paciente com um grande pedaço de um dos pulmões faltando, algo que deveria ser trivial para alguém que diz poder enxergar a nível celular.

Mas os erros de Natasha dizem mais que seus acertos. Ela não conseguiu descobrir o homem com uma placa de metal na cabeça, escolhendo em vez deste outro que vestia um boné, o chute mais provável de alguém que estivesse tentando deduzir as respostas. É difícil imaginar barbada maior do que esta para quem pode ver o interior dos orgãos humanos. Natasha também foi incapaz de determinar quem, dentre os pacientes, tinha o apêndice faltando. Este erro foi especialmente grave, já que os pesquisadores descobriram após o teste que um dos pacientes esqueceu de relatar que também havia retirado o apêndice. Ou seja, havia não um mas dois pacientes sem apêndice e Natasha teve o dobro de chance de acertar esta. No início dos testes, Natasha protestou dizendo que poderia não conseguir detectar a falta de um apêndice já que eles podiam se regenerar. Quando foi informada de que apêndices não crescem quando retirados, respondeu: “Na Rússia eles crescem”. Como um apêndice que se regenera é quase tão estranho quanto alguém com visão de raios-x, é melhor alguém começar a investigar o que os russos andam bebendo por lá.

O programa da Discovery já foi ao ar na Europa mas não ainda nos EUA e portanto nem no Brasil. Enquanto esperamos, o melhor é conferir a matéria que os pesquisadores que testaram Natasha escreveram para a Skeptical Inquirer.

Skeptical Inquirer
Skeptical Inquirer

Que $#*! isso quer dizer!?
Imagine um documentário sobre física quântica, aquele assunto cabuloso que meia dúzia de pessoas no mundo entende completamente. Adicione uma generosa dose de misticismo e do caldo retire frases inextrincáveis como “Deus é uma superposição quântica e nosso livre arbítrio um efeito quântico” ou “Toda emoção é impressa holograficamente em nossas células”. Junte algumas entrevistas com cientistas (uns respeitáveis, outros bem pouco) e o depoimento de um guerreiro da Atlântida morto há 35.000 anos, canalizado por um discipúlo da lucrativa seita da qual faz parte a atriz Shirley MacLaine. Agora embale tudo na linguagem emocionalmente agradável da auto-ajuda, conclua com uma mensagem otimista do tipo “o pensamento positivo pode mudar sua vida” e você terá o mega-sucesso “What the Bleep do We Know”, o fime de não-ficção mais visto até hoje nos EUA desde Michael Moore.

Bleep narra a estória de Amanda, uma fotógrafa surda, que em profunda depressão devido ao rompimento com o marido decide empreender uma “jornada espiritual” em busca das respostas que todos gostaríamos de ter. O que se segue é uma macarronada de física, misticismo, religião, new-age e auto-ajuda.

Por exemplo, em uma cena Amanda se depara com fotografias de cristais de água tiradas em um microscópio pelo fotógrafo japonês Masaru Emoto. Neste momento, Amanda é apresentada à idéia de que os padrões produzidos pela água são influenciados pelo pensamento ou, pasme, pelo que está escrito no rótulo do recipiente da água. Palavras como “Amor” produzem belos padrões enquanto “Eu quero matar você” desarranja a delicada estrutura. Agora se isso acontece na lâmina do microscópio, imagine o que os pensamentos fazem com os 90% do seu corpo constituídos por água, sugere o filme. Em outro ponto, é dito que efeitos paranormais podem ser explicados como o colapso de uma função de onda; eis porque a meditação em massa reduziu os índices de crime da cidade de Washington DC. Concorrendo pela idéia mais estapafúrdia, vem a alegação de que os índios da América não eram capazes de ver, literalmente, os navios espanhóis chegando às suas praias, porque eles não faziam parte do seu “paradigma”. Com esta afirmação claramente eurocêntrica, que esquece o fato óbvio de que não deveria ser difícil reconhecer um pedaço um pouco maior de madeira boiando quando se tem canoas, o filme tenta convencer o expectador de que a realidade é subjetiva e dependente do ponto de vista de quem a observa. Como se a gravidade fosse opcional.

Não é a toa que o filme deixou a comunidade científica indignada. Cada conceito físico mostrado no documentário é maltratado, torcido e dobrado para ser encaixado na visão místico-religiosa dos produtores. “O filme é um atentado contra a ciência. É obviamente falho e completamente sem dados. Estou particularmente preocupado com a cena em que a protagonista lança longe seus remédios. Esta idéia new-age, de que o pensamento positivo pode substituir a medicina é especialmente perigosa”, diz Raj Persaud, psiquiatra no Maudsley Hospital em Londres. Tim Evans, da Universidade de Londres, diz que “O filme é perigoso porque explora o desejo genuíno das pessoas em entender as grandes questões da vida e dá às respostas uma falsa aparência científica”.

Não é de hoje que os pseudocientistas e místicos em geral buscam na física quântica a base científica para suas teorias. A física moderna, com suas especulações sobre o espaço e o tempo, múltiplas dimensões, realidade baseada em probabilidades e, mais do que tudo, complexidade ao alcance de poucos mortais, sempre se encaixou bem nos delírios místicos. O que “What the Bleep do We Know” faz de mais grave é comparar o comportamento das partículas atômicas regidas pela física quântica ao mundo macroscópico. Ao contrário do que o filme sugere às vitímas que o assistem, uma bola de beisebol não tem o mesmo comportamento de um fóton.

Agora é só aguardar o estrago que o documentário fará quando chegar por aqui.

The Guardian

Acupuntura em casa
A acupuntura é provavelmente a terapia alternativa com maior penetração na comunidade médica. Ainda que toda a teoria de meridianos na qual esta prática se baseia não seja muito convincente, a acupuntura é geralmente considerada eficaz, por exemplo, no tratamento da dor. Críticos argumentam que a dor é algo altamente subjetivo, podendo ser afetada por inúmeros fatores (como o efeito placebo), o que dificulta uma conclusão confiável. Além disso, outros mecanismos poderiam estar envolvidos na redução da dor, como uma liberação de endorfinas estimulada pelas agulhadas, que não teria nada a ver com toda a história de energia fluindo pelo corpo em meridianos, etc.

Um estudo recente publicado no Journal of the American Medical Association, uma das revistas médicas mais respeitadas no mundo, acaba de espetar profundamente a credibilidade dos praticantes da acupuntura. Por volta de 300 pacientes vítimas de enxaquecas crônicas foram divididos em três grupos: o primeiro grupo foi submetido à acupuntura "autêntica", o segundo a uma acupuntura "falsa" (onde as agulhas foram aplicadas em pontos do corpo sem relação com os supostos meridianos) e o terceiro grupo, o grupo de controle, não recebeu tratamento nenhum.
O resultado? A acupuntura funcionou! Quer dizer, as duas "acupunturas" funcionaram... Tanto a acupuntura "autêntica" quanto a acupuntura "falsa" apresentaram a mesma eficácia, quando comparadas ao grupo de controle. Bob Park, editor da coluna "What's New" comentou ironicamente sobre os benefícios desta pesquisa: "Isto vai simplificar muito o treinamento dos especialistas em acupuntura. Simplesmente espete a porcaria das agulhas em qualquer lugar".

Em outras palavras, na próxima vez que você quiser um tratamento de acupuntura, faça o seguinte: arrume algumas agulhas e convide alguém que não gosta de você para espetá-las à vontade no seu corpo. Você terá o seu tratamento de graça e ainda vai ajudar ao próximo, dando-lhe alguns momentos de felicidade.

jama

Criacionismo, de novo
O criacionismo ataca de novo. Se você achava que apenas estados americanos rurais e atrasados eram afetados pela pressão para o ensino do criacionismo em escolas públicas, está na hora de você rever os seus conceitos. Agora, um projeto de lei instituindo tempos iguais para o ensino da evolução e do criacionismo está tramitando no estado de Nova Iorque. Aliás, desculpe, criacionismo não, é Design Inteligente. Qual a diferença? A mesma que entre "carro" e "automóvel" - são a mesma coisa, mas a segunda forma parece mais técnica e moderna.

ncseweb

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