Projeto Ockham

N° 11 • 04 Set 05

Radar Ockham de volta
Depois de quase dois meses sumido, o seu boletim de ciência e pensamento crítico quinzenal (ou quase) está de volta. Neste meio tempo, a numerosa dupla de autores esteve bastante ocupada. Alexandre Taschetto apresentou na Unicamp a palestra de abertura da Semana de Engenharia Química com o tema "A Invasão das Pseudociências" (mais fotos por vir). Enquanto isso, Widson Porto vem preparando a apresentação que fará em setembro na I Conferência Latino Americana de Pensamento Crítico, na Argentina, com o tema "A Penetração das Pseudociências nas Universidades". E pelo menos mais um novo artigo está pronto para ser lançado no site.

O Globo ataca de novo
Já mencionamos aqui o desserviço prestado pela revista de domingo do jornal O Globo, que espalhou a idéia sem pé nem cabeça de que sutiãs causam câncer de mama. Parecia um escorregão isolado de um veículo respeitado da mídia. Mas eis que a pseudociência ataca de novo, mais uma vez com direito a uma reportagem de capa na mesma revista, no último dia 28.

A propaganda agora é sobre o Body Talk, um revolucionário (como sempre...) sistema de tratamento de saúde, que na verdade não passa de uma embalagem modernizada para velhas idéias sem comprovação cientifica. Então, mais uma vez, nos deparamos com energias indefinidas, resultados maravilhosos a partir da simples manipulação e/ou toques em partes do corpo e outras teorias absolutamente sem sentido.

Não conseguimos explicar melhor do que o próprio site do sistema, www.bodytalksystem.org, se é que isso se qualifica como uma explicação: “O que você tem quando combina a sabedoria da ioga avançada e filosofia advaítica [uma linha do hinduísmo], as descobertas da física e matemática modernas, a dinâmica energética da acupuntura, os resultados clínicos da Cinesiologia Aplicada [um nome genérico para técnicas terapêuticas não comprovadas que envolvem a manipulação do corpo], e o conhecimento médico ocidental?”. Em bom português, você tem uma descrição impressionante de algo que não significa nada. Para os criadores (e vendedores) do sistema, você tem algo revolucionário.

Como o BodyTalk “funciona”? “O sistema BodyTalk identifica os circuitos energéticos fracos que existem no corpo.” Lá vamos nós com a tal energia... “O praticante se baseia na sabedoria inata do corpo para localizar os circuitos que precisam de reparos, através do uso de uma ... técnica de teste muscular.” E resumindo a história, para cada circuito com defeito que é encontrado, o praticante toca em alguns pontos e tudo se resolve. Por exemplo, um leve toque no topo da cabeça estimula os “centros do cérebro” (seja lá o que isso significa) e faz com que o cérebro re-avalie a saúde do corpo. “O resultado é que o equilíbrio geral de energia do corpo é vastamente melhorado”. Tão simples...seria tão bom se fosse verdade.

Como sempre, além de relatos de sucesso (como aqueles comerciais de dietas e equipamentos de ginástica que passam na TV de madrugada), a reportagem envolve informações vagas, como a de que o sistema teria sido estudado em Harvard e estaria sendo implementado em escolas de Boston. Não conseguimos encontrar confirmação de nenhuma das duas informações. Na verdade, nem o próprio site do BodyTalk diz isso. Uma busca no Medline (a maior base de estudos médicos existente) não encontra nada sobre o BodyTalk ou seu inventor, o quiroprático e acupunturista John Veltheim (a quiroprática é outra das técnicas sem fundamento do grupo conhecido como “cinesiologia aplicada”).

Além do mais, vários programas sérios na área de saúde usam o nome “BodyTalk”, como, por exemplo, um serviço de informações médicas da Universidade da Virginia e um programa educacional conjunto da Dove e da Eating Disorders Association, o que convenientemente ajuda a confundir o público.

Ou seja, a única informação confiável que pudemos tirar da reportagem é que o público brasileiro terá mais uma opção para desperdiçar seu dinheiro em terapias inócuas... e com a ajuda de um dos maiores jornais do país.

Cientistas usam vacas para gerar eletricidade
Apesar de sua vital importância para nossa alimentação, vacas sofreram um certo marketing negativo ao serem acusadas de contribuir para o aquecimento global por causa de suas emissões de metano, gás gerado durante seu processo de digestão e liberado …bem, todos sabem como.

O metano, na verdade, pode ser usado como combustível para geração de eletricidade em usinas termelétricas e isso é feito em aterros sanitários de vários lugares do mundo, onde eles são construídos da forma correta e o metano gerado pela decomposição do lixo é recolhido e aproveitado. No caso das vacas, esse recolhimento seria um tanto difícil e elas não poderão contribuir com a nossa sociedade desta forma.

Mas agora cientistas descobriram uma outra forma de se gerar eletricidade a partir do processo de digestão das vacas. Pesquisadores da Ohio State University montaram células combustíveis usando ...o suco digestivo de vacas. Células combustíveis são pequenos geradores que permitem a produção de energia elétrica diretamente a partir de uma reação química. As mais conhecidas são as células de hidrogênio, que produzem energia a partir da combinação do hidrogênio com o oxigênio do ar, produzindo apenas água como subproduto. Usando a reação entre o suco digestivo das vacas e celulose (que é digerida pelo suco), os pesquisadores conseguiram gerar por volta de 600 millivolts de eletricidade (aproximadamente um terço do gerado por uma pilha comum).

A idéia seria utilizar o dispositivo em regiões pobres, como uma forma barata de energia. O inconveniente seria coletar o “combustível”, já que o suco digestivo tem que ser retirado do estômago das vacas através de um tubo. As vacas, obviamente, não se expressarão sobre essa idéia, mas talvez alguma ONG de proteção dos animais ache o procedimento cruel.

A alternativa seria usar estrume de vaca, que também foi testado e funcionou, ainda que gerando um pouco menos de eletricidade – por volta de 350 millivolts. Essa opção seria mais confortável para as vacas, mas um pouco menos agradável pelos usuários. De qualquer forma, ainda deve demorar para que vejamos um garoto andando pela fazenda ouvindo músicas no seu iPod, conectado a uma mochila de baterias cheirando a estrume.

Live Science

A Lua em um cinema longe de você
A rede americana de cinemas IMAX está lançando este mês o filme "Magnificent Desolation - Walking on The Moon 3D", produzido por Tom Hanks. Além das telas curvas gigantescas dispostas em um domo circular, o cinema fornece ao expectador fones de ouvido sem fio e óculos especiais que prometem uma experiência única de imersão. Se os "conspiracionistas da Lua" já duvidavam da ida do homem à Lua por causa do suposto realismo de filmes como "2001 - Uma Odisséia no Espaço" e "Capricórnio 1", imagine o que dirão agora (ou no futuro, quando o homem eventualmente voltar a pisar na Lua).

Como não há cinemas IMAX em terras brasileiras, o mais perto do filme que poderemos chegar é visitando o site do filme, o que aliás, vale a pena: o site é belíssimo e contém vários itens para download incluindo um ótimo "Educator&apss Guide" (em PDF) com fatos, mitos e exercícios relacionados à Lua.

IMAX

Exorcismos em um cinema próximo de você
Também em setembro estréia, nos EUA, o filme "O Exorcismo de Emily Rose". O filme conta a história de um padre acusado de matar uma jovem durante um exorcismo.

Qualquer semelhança com o padre romeno que confessou matar uma freira durante um ritual exorcista é mesmo pura coincidência, já que o assassinato ocorreu há poucos meses. Na vida real, o padre Daniel Corogeanu, com a ajuda de quatro freiras, acorrentou a freira Maricica Corcini a uma cruz, amordaçou-a com uma toalha e a deixou sem água e comida por três dias, num esforço para expulsar o demônio que acreditava ter possuído o seu corpo. A freira morreu de desidratação e asfixia.

Nos últimos 10 anos pelo menos outros cinco casos de exorcismo com consequências fatais, foram relatados nos EUA. No Brasil, onde os exorcismos são diariamente transmitidos pela televisão, ainda não houve vítimas fatais, a não ser a inteligência humana.

Live Science

Homeopatia não funciona
Esta é a conclusão de um estudo conjunto de pesquisadores ingleses e suíços, publicado na Lancet, uma das mais respeitadas revistas médicas do mundo. Dpois de analisar 110 estudos homeopáticos, os pesquisadores não encontraram nenhuma evidência de cura além do esperado para o efeito placebo (quando uma pessoa se cura tomando um remédio inócuo, sem saber).

"Os médicos deveriam ser honestos e enfáticos com os pacientes sobre a falta de benefícios da homeopatia", diz o estudo conduzido pelo professor Matthias Egger, das Universidades de Berne e seus colegas da Universidade de Zurich e Bristol. Nos 110 estudos examinados, os resultados dos tratamentos homeopáticos foram comparados aos tratamentos convencionais para asma, alergias e dores musculares. O que os cientistas constataram é que para estudos com pequeno número de casos, as duas medicinas mostraram resultados melhores do que os estudos com grandes populações. Para estes estudos entretanto, feitos com maior rigor científico, a homeopatia não mostrou nenhum efeito maior do que o placebo.

Logicamente, o estudo causou furor, especialmente no Brasil, um dos poucos países onde a homeopatia é prática médica reconhecida. Ariovaldo Ribeiro Filho, presidente da Associação Paulista de Homeopatia, publicou uma resposta ao estudo da revista Lancet onde diz que a homeopatia não pode ser julgada pelos mesmos parâmetros da medicina tradicional. Segundo ele, cada tratamento homeopático é único; o remédio que serve para um paciente pode não servir para o outro com a mesma doença. Segundo Ariovado, "Os trabalhos considerados de alta qualidade para a Alopatia são tidos como de baixa qualidade para a Homeopatia, e vice-versa".

Segundo Ariovaldo, "os pesquisadores teimam em não compreender" a homeopatia. Mas os homeopatas tentam, sem sucesso, convencer a medicina há aproximadamente duzentos anos. Talvez teimosia não seja exatamente a origem do problema.

Enquanto isso, desde 2002 o mágico James Randi oferece um prêmio de 1.000.000 de dólares a quem conseguir provar que a homeopatia funciona. Ninguém ainda conseguiu passar pelos testes preliminares...



BBC

O Mito dos Monstros Espaguetti Voadores toma a internet


Tudo começou em junho quando o jovem físico Bobby Henderson enviou uma carta aberta ao conselho de educação do estado de Kansas. A carta foi uma resposta à decisão do conselho de conceder tempos iguais ao ensino do evolucionismo e do criacionismo nas escolas públicas daquele estado. Nela, Henderson argumentava que desde que o conselho concederia tempo para o ensino do mito bíblico nas aulas de ciência, também deveria conceder o mesmo tempo ao ensino de sua própria crença: a de que o mundo foi criado por Monstros Espaguettis Voadores. Henderson argumentou que se não fosse atendido seria forçado a entrar na justiça com uma ação de ilegalidade contra a medida dos tempos iguais.

A carta, evidentemente uma inspirada paródia com o criacionismo, foi recebida com simpatia por alguns membros do conselho e se espalhou de forma viral pela internet (uma pesquisa no Google já traz mais de 250.000 resultados) até tomar as páginas dos grandes jornais e aparecer na televisão (foi notícia no canal MultiShow há alguns dias). Chegou até mesmo a ser incorporado à Wikipedia (mas isso pode mudar a qualquer instante, dado o caráter comunitário da enciclopédia.)

Segundo Henderson, agora profeta da Primeira Igreja do Monstro Espaguetti Voador, movimento conhecido por Pastafarianismo, o universo foi criado por um invisível e indetectável monstro espaguetti voador. Todas as evidências contrárias a este fato foram intencionalmente forjadas pelo Monstro Criador. Mais do que isso, Henderson afirma que o aquecimento global é consequência do decaimento do número de piratas desde 1800, e prova o que diz com um gráfico que mostra a correlação entre os dois fatores ao longo do tempo (uma referência à falácia de que "correlação implica em causa").

Para os recém convertidos, as vantagens são muitas - um vulcão de cerveja os aguarda no paraíso - e as regras de conduta são poucas; a mais importante diz que as orações devem terminar com Ramem em vez de Amem...



New York Times

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