Projeto Ockham
Pesquisas médicas Entendendo as pesquisas médicas

por Alexandre Taschetto de Castro mail
em 10/08/04

Armadilhas na avaliação de uma terapia

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Antes de explicar como os estudos médicos são realizados e interpretados, vamos falar de alguns erros freqüentemente cometidos quando alguém busca tirar uma conclusão sobre determinada terapia.

Suponha que você esteja com uma terrível dor de estômago. O seu vizinho, muito prestativo, conta que conhece um remédio "tiro e queda"... esfregar um cristal na barriga. Segundo ele, o cristal absorve a energia negativa de seu estômago, fazendo a dor passar. Funcionou para ele e para vários conhecidos dele, então você resolve experimentar. Você passa duas horas esfregando o cristal na barriga e vai dormir. No dia seguinte, a sua dor de estômago passou. Incrível! O cristal funcionou! Ou não?

Uma vez que a sua dor de estômago passou, o problema está resolvido e você pode não perder tempo analisando muito o evento. Mas será que você pode concluir com confiança que o cristal foi o responsável por sua "cura"? Se você tem um filho pequeno e ele amanhecesse com dor de estômago, você faria a terapia do cristal, confiante de que esta seria a solução que eliminaria o sofrimento de seu filho o mais rápido possível, ou o levaria a um médico?

Antes de responder a uma pergunta desse tipo, seria prudente que você considerasse três fatores: a natureza auto-limitante e variável de várias doenças, causas não reconhecidas e o efeito placebo.

Um fator que muitas pessoas costumam esquecer é que boa parte das doenças é limitada, mesmo na ausência de tratamento. Se você é uma pessoa saudável e pega uma gripe comum, por exemplo, você não vai morrer por causa disso nem permanecer doente para o resto da vida. O seu corpo se recuperará sozinho, mesmo que você não receba nenhum tratamento. O objetivo do tratamento é acelerar sua recuperação, cuja velocidade já varia naturalmente de caso para caso, de indivíduo para indivíduo. Então talvez o cristal tenha feito sua dor de estômago passar mais rápido. Mas talvez a sua dor de estômago teria passado durante a noite naturalmente, mesmo sem a terapia do cristal (o que a tornaria inútil). Como saber?

Mesmo doenças não limitadas apresentam variações naturais. O câncer, por exemplo, assim como várias doenças crônicas (Alzheimer, esclerose múltipla, etc) pode apresentar uma melhora significativa ou até mesmo desaparecer temporariamente (a chamada regressão espontânea). Isto não significa que a pessoa foi curada, apenas que a doença "se escondeu" por um tempo, por motivos que desconhecemos. Um tratamento administrado nesta época pode parecer eficaz, mas como saber que não foi apenas coincidência? Além disso, para uma doença que alterna naturalmente entre períodos de piora e melhora, é mais provável que o paciente procure uma terapia qualquer ao entrar em um período de piora, que será naturalmente seguido por uma melhora, com ou sem tratamento.

Outro problema é identificar exatamente as relações de causa e efeito na evolução de uma doença. Ainda que sua atenção esteja voltada para o tratamento que você escolheu, outros fatores aos quais você não está prestando atenção poderiam ser a verdadeira causa de sua cura. Talvez a sua dor de estômago fosse decorrente de preocupações no trabalho, que foram aliviadas com aquela massagem que você recebeu de seu (sua) parceiro(a) antes de dormir. Ou o verdadeiro responsável por fazer sua dor de estômago sumir foi aquele chazinho que você tomou depois. E assim por diante. Em função da complexidade de nosso organismo, para cada doença existem inúmeros fatores que poderiam ter um efeito sobre sua evolução e é preciso muito cuidado para identificar quais têm um efeito real e quais não têm efeito nenhum.

Por fim, temos o famoso efeito placebo. Há muito tempo os médicos já sabem que, em certos casos, pacientes apresentam melhoras significativas quando recebem medicamentos ou tratamentos totalmente inócuos. Este efeito ainda não é completamente compreendido, mas acredita-se que fatores psicológicos estejam envolvidos, sendo o efeito relacionado à expectativa (positiva ou negativa) do paciente em relação ao tratamento (quando o placebo provoca efeitos negativos ele é chamado de nocebo). Isto significa que para se avaliar uma terapia é preciso diferenciar seu efeito terapêutico (se ele existir) de um efeito placebo.

É por causa destes fatores que a medicina moderna não considera relatos ou testemunhos pessoais de eficácia como confiáveis na hora de se avaliar um medicamento ou uma terapia, independente de sua quantidade, da honestidade das testemunhas, etc. Não é uma desconfiança pessoal e nem preconceito. É simplesmente o reconhecimento de que existem muitas fontes de erro nesse processo, que precisam ser eliminadas de uma forma mais garantida. E como isso é feito? Continue lendo.

Os tipos de estudos médicos
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