Projeto Ockham
Pesquisas médicas Entendendo as pesquisas médicas

por Alexandre Taschetto de Castro mail
em 10/08/04

Alguns exemplos

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Recentemente, um estudo envolvendo um grupo de compostos químicos chamado parabenos recebeu grande destaque na imprensa. Neste estudo, a Dra. Phillipa Darbre encontrou parabenos nos tumores retirados de seios de mulheres com câncer de mama. Como parabenos são utilizados em vários produtos cosméticos (incluindo alguns poucos desodorantes), o estudo foi anunciado como uma evidência da possível relação entre o uso de desodorantes e o câncer de mama. Vamos analisar esse estudo em um pouco mais de detalhes.

A Dra. Darbre analisou os tumores de 20 pacientes, encontrando traços de parabenos em 18 deles. Seis tipos de parabenos foram investigados: metil-parabeno, etil-parabeno, propil-parabeno, isobutil-parabeno, butil-parabeno e benzil-parabeno. A medição da concentração de parabenos nas amostras foi dificultada por dois fatores. Em primeiro lugar, os parabenos precisam ser extraídos dos tecidos analisados e esta extração não é perfeita. Como benzil-parabeno não foi encontrado em nenhuma amostra, ele foi usado para se estimar a eficiência desta extração. Uma determinada quantidade de benzil-parabeno foi adicionada a três amostras e verificou-se a concentração encontrada após a extração, estimando-se então que aproximadamente 50% dos parabenos presentes são recuperados pelo procedimento de extração. Outro problema é a possível contaminação das amostras por parabenos externos (proveniente de material de limpeza usado no laboratório, cosméticos usados pelos pesquisadores, etc). Isto é avaliado pela análise dos chamados "brancos". Um "branco" é uma amostra que sofre todo o processamento que o material a ser analisado, mas não contém o material (neste caso, o tecido do tumor), permitindo então que se saiba a quantidade de parabenos introduzida na amostra durante esse processo. Portanto, a concentração de parabenos encontrada no branco tem que ser subtraída da concentração encontrada na amostra de tumor, para se obter um valor verdadeiro.

Vamos aos resultados. Em duas amostras, a concentração de parabenos no branco era maior que nos tecidos analisados (!?). Nas dezoito amostras restantes, a concentração média encontrada (descontado o branco) foi de aproximadamente 20 nanogramas por grama de tecido (1 nanograma é 1/1.000.000.000 do grama), sendo que em quatro amostras este valor chegou próximo a 50 nanogramas por grama (50 ng/g). O raciocínio da Dra. Darbre foi o seguinte: considerando uma eficiência na extração de 50%, estas quatro amostras teriam na verdade aproximadamente 100 nanogramas de parabenos por grama de tecido e considerando que estudos anteriores determinaram que uma concentração de 150 nanogramas por mililitro são suficientes para estimular o crescimento de células cancerosas in vitro (lembra dos estudos in vitro?), então é possível que exista uma relação entre a absorção de parabenos e o desenvolvimento do câncer de mama.

Faz sentido? Mais ou menos. Vamos fazer algumas observações:

A Dra. Darbre comparou a concentração dos parabenos em tecidos com a concentração capaz de estimular o crescimento de células cancerosas in vitro. O seu organismo é bem diferente de um tubo de ensaio e uma comparação direta não é conclusiva. Talvez em seu corpo seja necessária uma concentração maior de parabenos para estimular o câncer, ou menor, ninguém sabe ainda.

Note que para fazer a comparação, a Dra. Darbre selecionou as quatro amostras com concentrações maiores. E as outras quatorze, que têm uma concentração bem menor de parabenos?

A eficiência na extração foi estimada em 50% a partir do benzil-parabeno. Mas os outros parabenos podem ser extraídos mais facilmente ou com mais dificuldade. Não sabemos.

O número de amostras analisadas foi bem pequeno - 20. Lembra da estatística de números pequenos?

Lembra da idéia de grupos de controle? Qual a concentração de parabenos nos tecidos da mama de mulheres que não desenvolveram câncer de mama? Se for semelhante ou maior, então nada pode ser concluído. Se for bem menor, então talvez realmente exista uma relação.

E se for confirmada uma relação entre a concentração de parabenos e o câncer de mama, isto não é prova de uma relação causal. Talvez os parabenos causem o câncer, talvez o câncer cause modificações no tecido que facilitem a absorção dos parabenos, talvez um terceiro fator cause os dois efeitos.

A própria Dra. Darbre faz algumas destas considerações em seu artigo. E outro artigo na mesma revista também apresenta questionamentos a este estudo. Mas é claro que estes detalhes todos não chegaram aos jornais. Em outras palavras, jornais não especializados não são fontes confiáveis de informações médicas. Mas não é porque saiu em uma revista especializada que a conclusão é necessariamente confiável. Vamos a outro exemplo.

Defensores da homeopatia apontam para uma variedade de estudos publicados em revista médicas apresentando evidências de sua eficácia. Em 2001, uma análise de estudos clínicos com remédios homeopáticos chegou à seguinte conclusão: "A pesquisa clínica homeopática está claramente em sua infância..." Por que uma conclusão tão negativa? Implicância? Preconceito? Vejamos.

O estudo em questão ("A systematic review of the quality of homeopathic clinical trials", por Wayne B. Jonas e outros pesquisadores) avaliou todos os testes clínicos envolvendo remédios homeopáticos publicados na língua inglesa entre 1945 e 1995, que utilizaram grupos de controle. Um conjunto de mais de 30 critérios de qualidade metodológica foram utilizados para selecionar os melhores dentre estes estudos, levando a um total de 59 artigos a serem avaliados de forma mais detalhada.

Você lembra do problema da estatística de números pequenos? Pois bem, dos 59 estudos, apenas um utilizou mais de mil pacientes. Quarenta estudos (67,8%) utilizaram grupos com menos de cem pacientes. Apesar de todos estes 59 usarem grupos de controle, apenas em 23 (40%), o grupo de controle recebeu um placebo e apenas em 30 (50,8%) a montagem dos grupos foi feita usando-se randomização dos pacientes. E quantos estudos seguiram adequadamente a filosofia do "duplo-cego"? Difícil saber, já que 49 estudos (83,1%) não descreveram a forma como os resultados médicos foram identificados e administrados. A taxa de abandonos não foi relatada em 38 estudos (64,4%) e, dentre os que a relataram, uma média de 17% dos pacientes participantes (quase 1 a cada 5) abandonaram o estudo. Em qualquer pesquisa científica, espera-se que os pesquisadores abordem, em suas conclusões, possíveis fatores que possam afetar os resultados. Isso faz parte de uma investigação imparcial e auxilia outros pesquisadores que busquem mais evidências a favor ou contra as conclusões obtidas, em estudos subseqüentes. Infelizmente, isso só foi feito em 8 destes 59 estudos.

Agora deixamos a conclusão para o(a) leitor(a)... baseado nesses estudos, você acha que existem evidências científicas confiáveis a respeito dos remédios homeopáticos? Por isso, leia com cuidado da próxima vez que sua revista favorita estampar na capa uma reportagem relatando uma nova terapia potencialmente revolucionária ou um novo estudo que "comprova" a eficácia de uma terapia alternativa.

Conclusão
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