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por Widson Porto Reis mail
em 30/03/03

Entendendo o mundo como uma partida de futebol

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Vamos nos permitir alguma liberdade criativa e imaginar que um alienígena recém chegado à Terra, interessado em conhecer nossos costumes, decide ir ao Maracanã assistir a uma partida de futebol. Certamente no início da partida o ET ficaria bastante confuso, vendo todas aquelas pessoas correndo atrás de uma bola, e muito intrigado ao ver como alguns jogadores ficam tão sensíveis quando ela se aproxima demais daquelas redes localizadas nas extremidades do campo. Mas ao longo da partida, percebendo que alguns lances se repetem e têm sempre o mesmo desfecho (por exemplo, a partida é sempre interrompida quando a bola sai dos limites traçados no campo), ele provavelmente formularia algumas hipóteses sobre o jogo: "será que o objetivo é enviar a bola o mais distante possível?", ele talvez pensasse após assistir um infeliz chute de fora da área; "ou talvez o objetivo seja matar o humanóide que carrega a bola", pensaria ao ver um zagueiro aplicando uma tesoura na altura do pescoço de um outro jogador. É quase certo que após algum tempo observando a partida e depois de vários palpites errados, o visitante extraterrestre fosse capaz de compreender a maior parte das regras do nosso futebol.

Pois nós somos como este alienígena. Estamos imersos no grande "jogo" da natureza tentando entender suas "regras": será que tudo o que sobe desce? Porque as coisas têm cor? Será que a posição que os corpos celestes ocupavam no instante de nosso nascimento podem afetar nossa personalidade? Em outras palavras, ou melhor, nas palavras do físico Richard Feynmann, "Entender a natureza é como aprender a jogar xadrez somente assistindo a partida".

Porém ainda que nossa metáfora seja didática, ela não é completa. Pois nela o ET assiste passivamente ao desenrolar dos lances na partida e propõe hipóteses que somente tem como verificar esperando que se repitam. Nós, por outro lado, não somos meros expectadores da natureza mas participamos dela; podemos interagir com ela realizando experimentos.

Claro que isto pode parecer um tanto óbvio. Afinal quando seu carro não pega pela manhã e você desconfia que a bateria está descarregada, provavelmente testa sua hipótese tentando acender os faróis ou medindo o potencial da bateria com um multímetro. Porque seria diferente com a ciência?

Pois por incrível que pareça, a idéia de realizar um experimento para testar uma hipótese é bastante nova; não tem mais do que 500 anos. Os filósofos gregos, que há mais de 2500 anos foram os primeiros a investigar o mundo de maneira racional e sistemática, achavam que a natureza só poderia ser compreendida pelo uso da razão e do intelecto e por isso desdenhavam a experiência. O filósofo Parmênides (510 a.C.) é um exemplo de como os gregos estavam dispostos a levar a lógica e a razão até as últimas consequências: ao negar a existência do tempo e do vazio e portanto do movimento, Parmênides concluiu que se tinhamos a impressão de que as coisas se moviam e o tempo passava era somente porque vivíamos num mundo ilusório (uma versão antediluviana do filme Matrix).

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