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por Widson Porto Reis mail
em 30/03/03

Falhas no método científico?

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Assim como já houve diversos cientistas que pensaram ter feito uma nova e revolucionária descoberta e mais tarde verificaram que seus dados não eram corretos, também houve vários casos de pesquisadores que fizeram de fato descobertas revolucionárias mas não souberam reconhecê-las, preferindo interpretar suas conclusões de uma maneira "convencional".

Tycho Brahe ficou famoso por coletar os mais precisos dados astronômicos que já haviam sido colhidos até a sua época. Porém Tycho não acreditava no modelo heliocêntrico proposto por Copérnico e utilizou suas observações para formular um novo modelo geocêntrico do universo (que se tornou muito popular). Foi preciso que seu discípulo e assistente, Johannes Kepler, alguns anos mais tarde utilizasse os mesmos dados mas orientado por uma crença diferente, para não só comprovar o modelo heliocêntrico como ainda estabelecer as Três Leis de Kepler do movimento planetário.

Mas se Tycho Brahe viu pouco em seus próprios dados o cientista francês Rene Blondlot enxergou demais (literalmente). Nos primeiros anos do século XX, Blondlot, estudando os recentemente descobertos raios X, pensou ter descoberto uma nova forma de radiação que chamou de raios N. Até 1903 Blondlot já havia publicado mais de 10 trabalhos sobre sua descoberta, mas nenhum outro cientista ainda tinha conseguido reproduzir suas experiências nem vislumbrar o menor sinal dos raios N. Por isso em 1904 o cientista americano Robert Wood foi enviado ao laboratório de Blondlot para tentar desvendar o mistério. Os raios N produzidos por um filamento aquecido de platina deveriam atingir um prisma e difratarem-se de encontro a uma tela produzindo bandas luminosas, porém quando Wood observou a tela não foi capaz de ver nenhuma das bandas luminosas que Blondlot alegava ver. Blondlot repetiu a experiência, mas desta vez Wood secretamente retirou o prisma da montagem. Para seu espanto, Blondlot continuou enxergando as bandas luminosas originadas pelos raios N! Não é preciso dizer que logo depois disso toda a história dos raios N foi desacreditada e esquecida.

A moral da história aqui é que os fatos não falam por si mesmos. Um cientista não espalha os fatos sobre a mesa e espera que a verdade emane deles espontaneamente. Como disse o cientista Henri Poincaré "Um punhado de fatos não é mais ciência do um punhado de tijolos é uma casa". Fatos e medidas precisam ser interpretados pelas pessoas que conduzem os experimentos, e pessoas como se sabe, são naturalmente susceptíveis a julgamentos pessoais, pré-conceitos, análises tendenciosas e - por que não? - ânsia em comprovar o que consideram ser a verdade. Será que o fato do cientista ser falível torna a ciência falível?

Sim e não. Ciente tanto de sua responsabilidade quanto da falibilidade dos cientistas, a ciência não se fia na autoridade de nenhum pesquisador e nem em pesquisas isoladas. Um fato só é aceito pela ciência depois de exaustivamente reproduzido por cientistas em todo o mundo (a história dos raios N também serve para ilustrar este ponto). É esta pois a beleza da ciência. O próprio método científico se encarrega de eliminar os julgamentos pessoais e impede que a longo prazo dogmas sejam formados. Ou nas palavras de Einstein: "Minhas idéias levaram as pessoas a reexaminar a física de Newton. Naturalmente alguém um dia irá reexaminar minhas próprias idéias. Se isto não acontecer haverá uma falha grosseira em algum lugar."

Conclusão
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