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Pseudociências Pseudociências

por Alexandre Taschetto de Castro mail
em 06/10/02

O que são as pseudociências

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Como o próprio nome indica, uma pseudociência é uma falsa ciência, ou seja, um conjunto de idéias e teorias que são incorretamente apresentadas como científicas ou comprovadas, com o objetivo de alcançar legitimidade frente ao público em geral. Freqüentemente, as pseudociências estão associadas a interesses comerciais, onde uma suposta base científica ou comprovação auxilia a convencer os "clientes" a abrirem sua carteira. Em geral, esta suposta comprovação é oriunda de uma longa e fascinante história, que apresentaria provas de sua veracidade mas seria totalmente ignorada pela comunidade científica por puro preconceito, ou de estudos duvidosos (com resultados "revolucionários") realizados por "cientistas" desconhecidos. Em alguns casos, estes estudos são realmente feitos por cientistas, mas cuja formação técnica é em uma área completamente diferente do assunto abordado, sendo seu interesse baseado em convicções pessoais que colocam em dúvida a imparcialidade dos resultados.

As pseudociências têm proliferado amplamente nas últimas décadas, auxiliadas por uma variedade de fatores, que incluem principalmente uma educação científica deficiente e uma mídia mais preocupada em obter manchetes do que em verificar a qualidade das informações que divulga. Com o advento da Internet, sua difusão ficou ainda mais fácil em meio à abundância de informações disponíveis, cuja qualidade é freqüentemente de difícil avaliação. Além disso, o caráter comercial associado a estas práticas leva seus defensores a promoverem ativamente sua propaganda em vários meios de comunicação, desde os folhetos colados em postes até a televisão.

Em alguns casos, a crença em uma pseudociência pode ser razoavelmente inofensiva, não levando a nenhuma outra conseqüência além de uma auto ilusão e de um certo desperdício de dinheiro. Por outro lado, pseudociências médicas, por exemplo, anunciadas como curas eficazes para uma variedade de doenças, podem causar danos à saúde que vão desde um simples atraso na cura de uma condição médica de baixa gravidade até a morte. Danos consideráveis também são causados quando uma pseudociência se infiltra no sistema político ou educacional. Exemplos clássicos são a utilização de conselhos de uma astróloga por administradores públicos (o caso mais famoso é o do ex-presidente americano Ronald Reagan, mas existem outros casos, inclusive no Brasil) e as tentativas de se abolir o ensino da teoria da evolução das espécies, em escolas americanas, por contrariar o dogma da criação do universo como exposto na Bíblia. Um exemplo mais próximo é a proposta de regulamentação da profissão de astrólogo, em tramitação no Congresso brasileiro. Pode-se citar também o reconhecimento da homeopatia como especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina, apesar desta prática ser amplamente contestada no meio científico.

A variedade de pseudociências existentes é impressionante e seu número continua a crescer, em função do surgimento de teorias completamente originais ou, o que é mais comum, da adaptação e modificação de conceitos antigos. Boa parte delas é baseada puramente em crenças antigas, que datam de uma época onde o pouco conhecimento que o homem tinha do universo levava, de forma compreensível, a especulações fantasiosas. A crença na influência dos corpos celestes em eventos terrenos, por exemplo, é uma herança de culturas primitivas que viam o Sol, a Lua e outros astros como deuses. Apesar de seu caráter divino ter sido abandonado à medida que a astronomia revelou sua natureza ordinária, os poderes dos astros celestes ainda são "estudados" pela astrologia. Outras pseudociências deturpam conceitos científicos comprovados, de forma a usá-los em suas explicações e teorias. Desde que Einstein demonstrou a equivalência entre a matéria e energia, este conceito tem sido mal interpretado (por ignorância ou má fé) das formas mais variadas possíveis. Aliás, o conceito de energia é o grande coringa das pseudociências, sendo empregado de formas totalmente absurdas e ilógicas, além de ser "redescoberto" em novas e criativas versões, usualmente com nomes de impacto (como energia biocósmica, por exemplo).

Uma rápida classificação das pseudociências encontradas atualmente foi elaborada pelo The Skeptic's Dictionary, que possui uma versão traduzida para o português. Esta não uma classificação rígida, já que muitas pseudociências se encaixam em mais de uma categoria, mas serve para dar uma idéia de sua diversidade. Resumindo,

Certas pseudociências são criadas com o único propósito de tentar confirmar dogmas, em geral de origem religiosa, e não para buscar uma melhor compreensão de nosso mundo. Ao invés de analisar fatos e dados experimentais para deles extrair novas informações, os defensores destas pseudociências simplesmente criam lógicas tortuosas para tentar forçar um coerência entre esses dados e seus textos sagrados. É o caso dos criacionistas;

Várias pseudociências apresentam alegações que são simplesmente impossíveis de serem testadas por pesquisadores independentes porque se baseiam em entidades que só podem ser observadas por aqueles que nelas acreditam. Geralmente, estas entidades são "novas" formas de energia, muito usadas em terapias alternativas;

Outras não podem ser testadas porque são formuladas de uma forma que permite sua consistência com qualquer situação experimental ou são tão vagas e maleáveis que qualquer dado experimental pode ser interpretado de uma forma forçada para se adequar a suas teorias. Este é o caso da teoria dos engramas de Ron Hubbard, base da Cientologia (misto de filosofia e religião abraçada por muitos artistas famosos americanos);

Muitas pseudociências foram testadas experimentalmente gerando enorme quantidade de evidências negativas, mas seus defensores recusam-se a capitular, buscando suporte para suas crenças em testemunhos pessoais, relatos de casos esporádicos ou coincidências. A astrologia é certamente o exemplo mais famoso;

Certas pseudociências usam alegações de natureza metafísica (que envolve a discussão do que é a realidade e qual sua natureza) como se fossem dados experimentais. É o caso de inúmeras terapias alternativas;

Algumas pseudociências vão diretamente contra as leis científicas estabelecidas, ignorando-as e criando hipóteses ad hoc (hipóteses criadas especificamente para contornar fatos que invalidam a teoria em questão) para tentar apoiar suas crenças. Por exemplo, a homeopatia.

O problema das pseudociências
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