Projeto Ockham
Pseudociências Pseudociências

por Alexandre Taschetto de Castro mail
em 06/10/02

O problema das pseudociências

Fórum Enviar artigo

Se as pseudociências são tão difundidas, será que não existe algo de concreto por trás delas? Talvez elas sejam realmente injustiçadas pelos cientistas "tradicionais" e mereçam o benefício da dúvida. Afinal de contas, se uma prática existe há centenas de anos, poderia ela estar totalmente errada? Ou talvez você conheça alguém que relate experiências positivas com uma destas práticas. Se tantas pessoas acreditam nelas, como podemos dizer que elas não têm fundamento?

Ao contrário do que muitos pensam, a ciência não é preconceituosa contra novas teorias e idéias, por mais fantásticas que elas pareçam. Mesmo que um cientista tenha convicções a respeito de um dado assunto, o método científico evoluiu, ao longo do tempo, para minimizar a importância de opiniões pessoais. Como disse Carl Sagan, na ciência não existem autoridades, existem, no máximo, especialistas. O verdadeiro julgamento de qualquer teoria é realizado através da experimentação. Um experimento é a forma que os cientistas têm de perguntar à natureza o que ela acha daquela idéia. E esta é a única "opinião" que conta. Se os resultados experimentais não estão de acordo com a teoria proposta, ela está errada. Ponto final. Esta imparcialidade garante que não nos apeguemos a idéias falsas, por mais convenientes ou agradáveis que elas pareçam. E algumas idéias são emocionalmente muito confortáveis. Mais antiga que qualquer pseudociência existente atualmente é a predisposição humana a acreditar no fantástico, no sobrenatural, a acreditar que "a verdade está lá fora". Esta característica humana, amplamente estudada pela ciência, é talvez o único fenômeno cientificamente comprovado presente nas pseudociências.

Desta forma, por mais emocionantes que estas crenças possam parecer, elas são incapazes de manter-se por seus próprios méritos e sem a utilização de artifícios injustificáveis, que aos poucos foram sendo reunidos no que hoje chamamos de pseudociências. O professor de física Rory Coker fez um bom resumo de práticas usadas pelos pseudocientistas na defesa de suas crenças, que seriam inadmissíveis em um contexto científico ético. Elas incluem:

As pseudociências mostram uma marcante indiferença em relação aos fatos: defensores das pseudociências não se preocupam em investigar diretamente os fatos ou basear-se em trabalhos de referência, simplesmente usando "fatos" falsos de acordo com a necessidade;

A pesquisa nas pseudociências é, invariavelmente, desleixada: pseudocientistas baseiam-se em artigos de jornais, boatos, outros textos escritos por pseudocientistas ou escritos mitológicos ou religiosos antigos, sem a preocupação em investigar de forma independente a validade de suas fontes;

As pseudociências partem de uma hipótese - em geral emocionalmente atraente mas espetacularmente implausível - e buscam apenas os fatos que parecem suportá-la: evidências conflitantes são ignoradas, já que o objetivo é racionalizar crenças e não investigar hipóteses alternativas;

As pseudociências ignoram o conceito de evidências válidas: experimentos científicos significativos, controlados e reprodutíveis não são enfatizados, ao contrário de testemunhos não confirmados e boatos; a literatura científica é ignorada ou mal interpretada;

As pseudociências baseiam-se fortemente em validações subjetivas: Uma pessoa coloca gelatina na cabeça e sua dor de cabeça desaparece. Para uma pseudociência isto significa que gelatina cura dor de cabeça. Para a ciência, isto não quer dizer nada, porque não foi um experimento controlado. Inúmeras outras coisas aconteciam quando a dor de cabeça desapareceu e ela teria desaparecido eventualmente mesmo que a pessoa não fizesse nada.

As pseudociências baseiam-se em convenções humanas arbitrárias, ao invés de padrões da natureza: A astrologia, por exemplo, é fortemente associada a inúmeras convenções arbitrárias, como o nosso calendário, a definição das constelações, quais os astros importantes e quais podem ser desconsiderados, etc.

Quando examinadas a fundo, as pseudociências sempre atingem uma redução ao absurdo: As explicações oferecidas pelos pseudocientistas simplesmente não fazem sentido. Quando suas teorias são analisadas a fundo, elas acabam expondo contradições inexplicáveis.

As pseudociências sempre evitam sujeitar suas alegações a testes significativos: Estudos experimentais confiáveis são raramente realizados (veja a resistência dos homeopatas em ter seus remédios avaliados pelos mesmo métodos que os remédios tradicionais). Quando algum pesquisador obtém algum dado a favor da pseudociência, o experimento não é repetido e verificado por outros pesquisadores e aquele único experimento é considerado perfeito.

As pseudociências freqüentemente se contradizem, em seus próprios termos: Ao tentarem explicar suas práticas, os pseudocientistas freqüentemente se contradizem, uma vez que não existe uma organização metódica de seu suposto conhecimento. É possível encontrar em um texto sobre a radioestesia a informação de que as forquilhas devem ser feitas com galhos recentemente cortados, porque apenas a madeira "viva" consegue canalizar a energia em questão, e mais tarde, no mesmo texto, nos depararmos com a afirmação de que a maioria dos radioestesistas usa instrumentos de metal ou plástico.

As pseudociências deliberadamente criam mistérios onde eles não existem, através da omissão de informações e detalhes importantes: Qualquer assunto pode ser descrito como misterioso, basta omitir as informações disponíveis. O mito do Triângulo das Bermudas é um exemplo clássico.

As pseudociências não progridem: ao contrário da ciência, as pseudociências não evoluem. Novas teorias não são formuladas, novos fenômenos não são descobertos, novos conhecimentos não são adquiridos. Ao contrário, quanto mais velha uma idéia, mais valor ela recebe.

As pseudociências buscam convencer através da retórica, propaganda e desinformação, ao invés da apresentação de evidências válidas: Como não possuem evidências concretas para apoiar suas crenças, os pseudocientistas usam praticamente todos os erros de lógica conhecidos. Uma ferramenta muito usada é o "Argumento Galileu", onde o pseudocientista se compara a Galileu Galilei, dizendo ser injustamente criticado da mesma forma que o famoso cientista (que na verdade teve suas teorias confirmadas por seus colegas).

Os pseudocientistas argumentam a partir da ignorância: este é um argumento clássico. Como existem casos de OVNIs que não foram explicados pelos cientistas, então eles devem ser naves extraterrestres. Em outras palavras, a ausência de informação é usada como base para se defender uma teoria!

Pseudocientistas se baseam em erros, anomalias e fenômenos estranhos, ao invés de padrões regulares da natureza, já estabelecidos: A história mostra que anomalias e fenômenos extraordinários tendem, na maioria dos casos, a serem identificados como fraudes, erros de interpretação, enganos honestos, etc. Pseudocientistas, por outro lado, tendem a aceitar estes relatos sem maiores considerações.

As pseudociências apelam a falsas autoridades, emoções ou desconfiança de fatos conhecidos: Evidências e opiniões são apresentados por "especialistas", que na verdade não têm formação na área em questão. Explicações emocionais são freqüentes: "Siga o seu coração...". E, é claro, existe sempre uma teoria da conspiração...

As pseudociências fazem alegações extraordinárias e apresentam teorias fantásticas que contradizem o que sabemos da natureza: Além de não apresentar evidências que suportem suas teorias, eles ignoram qualquer conhecimento que atrapalhe suas conclusões. Por exemplo, discos voadores vêm do interior da Terra, que é oca (!?).

Os pseudocientistas inventam seu próprio vocabulário, onde muitos termos não possuem definições precisas (ou não possuem definição nenhuma): Os pseudocientistas tentam imitar o jargão científico, usando palavras sem significado que parecem termos técnicos. As medicinas alternativas estariam perdidas se não fosse o termo "energia", mas a forma como este termo é usado não tem nada a ver com o conceito de energia empregado pelos físicos.

As pseudociências apelam para os critérios do método científico ao mesmo tempo em que negam sua validade: Um estudo com falhas de procedimento que parece comprovar a eficácia da astrologia é encarado como "prova", enquanto inúmeros outros estudos que chegam à conclusão contrária são solenemente ignorados.

Os fenômenos estudados pelas pseudociências são "tímidos": Os fenômenos ocorrem somente em certas condições ideais vagamente definidas (quando nenhum cético está olhando, quando as "energias" estão fluindo da forma certa, etc). Para a ciência, fenômenos genuínos podem ser estudados por qualquer um com os equipamentos necessários e, se os procedimentos forem corretos, os resultados serão consistentes.

As explicações pseudocientíficas tendem a ser basear em cenários: Muitas vezes, os pseudocientistas contam uma história e mais nada, sem detalhes dos processos envolvidos. Por exemplo, o psicólogo (!) Immanuel Velikovsky alegava que um planeta havia passado próximo da Terra, invertendo seu eixo de rotação. E só. Sem um mecanismo proposto, nada. Isto é uma história, não uma teoria.

Pseudocientistas freqüentemente apelam ao antigo hábito humano de pensamento mágico: Mágica, superstições e crenças semelhantes surgem quando relações e influências inexplicáveis entre fatos independentes são assumidas, sem nenhuma investigação. O mesmo raciocínio é usado por muitas pseudociências.

Pseudociências baseiam-se fortemente no raciocínio anacronístico: quanto mais velha a idéia, mais atraente - a sabedoria dos antigos! Especialmente se a idéia tiver sido derrubada pela ciência há muito tempo.

Conclusão
Cadastre seu email para receber nosso boletim:
Pipoca com Ciência

Dragão da Garagem