Projeto Ockham
O 11 de Setembro

por Widson Porto Reis mail
em 27/01/07

Loose Change

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O número de sites, livros e filmes dedicados à exploração das teorias da conspiração do 11 de Setembro é incalculável, mas um pode ser responsabilizado mais do que qualquer outro pelo alvoroço incomum que esta teoria vem causando: o filme Loose Change.

Este filme amador, produzido por 3 jovens - um aspirante a estudante de cinema, um web designer e um ex-soldado do exército americano - tornou-se rapidamente um fenômeno de popularidade na internet; estima-se que já tenha sido assistido por mais de 10 milhões de pessoas até o momento em que este texto estava sendo editado. Como se já não bastasse a exposição conseguida com a internet, uma segunda edição do filme foi veiculada por uma subsidiária regional da FOX (sempre ela! A FOX também veiculou o vídeo "Did We Went to the Moon?" que reforçava outra tese conspiratória, a de que o homem nunca foi à Lua)(fonte).

Em vez de apresentar uma tese consistente, Loose Change atira para todos os lados. Segundo o documentário, seria falso o vídeo em que Osama Bin Laden assume a autoria dos atentados, uma vez que o terrorista aparece usando um anel de ouro, o que é proibido pela lei islâmica (só não dizem como fizeram para saber que o anel é mesmo de ouro). Embora pronto para desconfiar de qualquer informação que venha do governo, o documentário não tem problemas para aceitar a palavra de Bin Laden quando, no filme que circulou poucos dias depois do 11 de Setembro, o terrorista nega sua participação no atentado (filme que seria, este sim, "verdadeiro"). Este é um bom exemplo da interpretação seletiva que permeia todo o documentário.

Loose Change também alega que as gravações das conversas telefônicas travadas pelos passageiros dos Vôos 77 e 93 e seus familiares foram forjadas, já que os celulares não funcionariam nos aviões. Nisso escolhem ignorar o fato bem conhecido de que vários passageiros usaram na verdade os telefones instalados no próprio avião (os tais "Airphones", coisa comum por lá). Quanto às chamadas feitas dos aparelhos individuais, o livro "Debunking 9/11 Myths", lançado pela revista Popular Mechanics como extensão do artigo disponível na web, mostra que o avião voava baixo, sobre uma aérea rural na qual o sinal de telefonia era forte. (Ao negar a autenticidade das conversas telefônicas, o Loose Change engendra um complô que exigiria, no mínimo, a participação das companhias telefônicas, dos técnicos que analisaram as caixas pretas desses vôos, dos peritos que analisaram as gravações e até dos familiares das vítimas!).

Há diferenças significativas entre a primeira e a segunda edição de Loose Change, que funcionam como admissões de erros: na última, a idéia de que o Vôo United foi derrubado pela Força Aérea foi substituída por outra: a de que o avião pousou normalmente no aeroporto de Cleveland e os passageiros foram removidos para um centro de pesquisas abandonado da NASA. A mais do que fantasiosa afirmação de que os aviões qua atingiram o WTC eram aviões militares não tripulados, equipados com um visível volume na parte inferior (que conteria mísseis) e sem janelas, foi removida, assim como foi também removida a menção de que 167 bilhões de dólares em ouro foram retirados do WTC dias antes do impacto; não se sabe como os autores obtiveram esta informação mas a cifra é mais do que existe em ouro nos EUA inteiro... (fonte)


Parte dos destroços de um dos aviões que se chocou contra o WTC. Segundo o Loose Change o avião que atingiu o WTC era um avião militar porque não tinha janelas. Os destroços mostram o contrário...

Mais grave do que a interpretação seletiva dos fatos, os erros, as alegações que simplesmente não podem ser verificadas, o documentário comete grave desonestidade intelectual ao citar suas fontes totalmente fora de contexto.

Por exemplo, Wally Miller, um dos primeiros agentes funerários a chegar ao local da queda do Vôo United 93 no dia 11 de Setembro, é citado aos 57:45 minutos do filme como tendo dito "Eu deixei de ser um agente funerário após 10 minutos porque não havia corpos lá". Este depoimento seria a prova de que o Vôo United não caiu onde o governo disse que caiu (ele teria pousado em outra parte, segundo o filme). Mas na verdade o que Wally disse foi "Eu deixei de ser um agente funerário após 10 minutos porque não havia corpos lá. Era como um gigantesco funeral" seguindo detalhes de como os corpos foram encontrados e em que condições (aqui a história completa de Wally).

Mais adiante a controladora de tráfego aéreo Danielle O' Brien é citada como se tivesse dito sobre o Boeing que se dirigia em direção ao Pentágono: "A velocidade, a manobrabilidade, a maneira como ele virou, todos nós na sala do radar, experientes operadores, pensamos que fosse um avião militar. Não se pilota um 757 daquela maneira". A citação é usada para colocar em dúvida o fato de um avião de passageiros atingiu o Pentágono. Mas eis o que a operadora disse realmente: "A velocidade, a manobrabilidade, a maneira como ele virou, todos nós na sala do radar, experientes operadores, pensamos que fosse um avião militar. Não se pilota um 757 daquela maneira. Não é seguro", o que faz toda a diferença.

Uma boa lista destas e outras pequenas trapaças e alegações sem fundamento de Loose Change, adequadamente refutadas por quem teve disposição para vasculhar cada pequeno detalhe, pode ser encontrada aqui: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4. Aqui, a mesma lista traduzida para o português. O filme Loose Change possui uma versão comentada por seus críticos: a "Screw Loose Change - Not Freakin' Again edition". Há também um guia comentado do vídeo que pode ser lido aqui.

Conclusão
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