Projeto Ockham
Marte Os canais de Marte

por Ana Luiza Barbosa de Oliveira mail
em 24/06/02

A evolução do mito (I)

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SChiaparelliSchiaparelli era astrônomo do observatório do Palácio Brera em Milão. Em 12 de setembro, utilizando o telescópio refrator Merz de 8,6 polegadas do observatório, ele começou a desenhar um mapa acurado do planeta. Ele nomeou as áreas claras e escuras do planeta de acordo com acidentes geográficos da Terra, sendo as áreas escuras relacionadas a corpos de água, como oceanos e mares. Ele assim o fez, primeiro por analogia com a Lua, que também possui áreas secas denominadas mares, e porque formações denominadas ilhas, cabos, estreitos, etc são autoexplicativas. Além disso, ele acreditava que as áreas escuras eram realmente mares rasos que por vezes inundavam as áreas adjacentes.

Foi assim que surgiram os infames canali, canais em italiano. No entanto, Schiaparelli não foi o primeiro a observar os canali. Antes dele, outros astrônomos já haviam registrado linhas na superfície de Marte, mas Schiaparelli foi o primeiro a mostrar o planeta coberto por estas estruturas.

Muitos cientistas e amadores pensavam que os canais eram aquedutos artificiais construídos por uma civilização marciana. Surgiram livros, revistas e matérias em jornais onde se discutia a possilbilidade da existência de vida em Marte baseada na existência dos canais.

Schiaparelli era daltônico e portanto não conseguia distinguir bem as várias nuances de vermelho e verde. Além disso, ele trabalhava por horas a fio, o que acabava causando fatiga ocular. E, de acordo com ele próprio, as estruturas de Marte eram bastante tênues e difíceis de enxergar, porém em duas ou três ocasiões em outubro de 1877 ele observou: "...momentos de absoluta calmaria atmosférica. Nestas circunstâncias era como se um véu fosse retirado da superfície do planeta que aparecia como um bordado complexo de várias cores. Mas tal era a pequena extensão destes detalhes e tão curto era o tempo que permaneciam visíveis que não era possível formar uma impressão estável e segura das finas linhas e pontos revelados."

Para Schiaparelli estes detalhes finos apareciam como estruturas lineares para as quais ele adotou a nomenclatura canali. Os canais apareceram para ele um ou dois de cada vez, nunca a rede inteira e, mais interessante, às vezes eles eram mais vísiveis quando o planeta estava mais longe. Isto intrigou muitos observadores, porém pode facilmente ser explicado. Marte passa por grandes tempestades durante o verão marciano, que ocorre perto da época do periélio. Estas tempestades podem ser locais ou mesmo atingir uma escala global, encobrindo por algum tempo a superfície do planeta.

Apesar de um certo ceticismo inicial (foi argumentado na época que um rio da largura do Nilo não poderia ser visto daquela distância), por volta da metade da década de 1880 os canais ganharam credibilidade junto aos observadores profissionais e amadores de Marte. Otto von Struve, tutor dos estudos iniciais de Schiaparelli, afirmava nunca ter visto os canais, mas confiava totalmente no seu renomado aluno. O fato de não ser capaz de observar os canais era considerado como uma falta de aptidão para a observação astronômica. Então mais e mais astrônomos relataram ter observado os canais.

Em 1890, o jornal San Francisco Chronicle publicou uma matéria afirmando que os canais de Marte formavam a palavra Shajdai, que em hebraico significa Todo-Podereoso. Esta foi só uma das várias histórias sensacionalistas que apareciam sobre Marte e sua possível civilização. Outras falavam de flashes de luz observados na superfície do planeta, que seriam sinais que os marcianos estavam nos enviando.

Camille Flammarion, astrônomo francês, aceitava a visão marítima de Schiaparelli na qual as regiões escuras eram mares rasos e as claras, continentes. Para ele, as mudanças nestas regiões eram um claro indicativo da presença do elemento água. Mas, ao contrário de muitos, ele não acreditava que os continentes eram desertos estéreis. Segundo ele, a cor vermelha de Marte era dada por sua vegetação. Ele também afirmava que Marte estava em um estágio evolucionário mais avançado que a Terra, daí a escassez de água e os poucos acidentes geográficos.

Em seu livro La Planète Mars, de 1892, ele afirmava que os canais eram cursos d'água, porém, ao contrário de Schiaparelli, ele acreditava que eram canais artificiais construídos por uma civilização marciana com o intuito de levar água para todo o planeta. O fato dos canais serem muito extensos e retos levou Flammarion a este ponto de vista.

)A evolução do mito (II)
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