Projeto Ockham
Marte Os canais de Marte

por Ana Luiza Barbosa de Oliveira mail
em 24/06/02

A evolução do mito (II)

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Lowell Percival Lowell, astrônomo americano, foi um grande promotor dos canais de Marte. Trabalhando em um observatório privado construído em uma montanha próxima a Flagstaff, Califórnia e equipado com um telescópio refrator de 24 polegadas, capaz de aumentar Marte cerca de 600 vezes, ele mapeou Marte de 1896 a 1916. Apesar da grande abertura do telescópio, as imagens do planeta eram difusas.

Através de cuidadosas observações, ele chegou a conclusão que as áreas escuras não eram corpos de água. Por outro lado, concluiu que os canais formavam uma rede de irrigação que levava água das calotas polares para os habitantes de Marte e que as mudanças nas áreas escuras refletiam variações sazonais devido ao cultivo de plantações.

Em 1894, houve um grande golpe contra a teoria de Lowell. W. W. Campbell fez um espectrograma de Marte e não detectou a presença de vapor d'água na atmosfera de Marte. Em 1909, ele confirmou suas observações, que se mostraram realmente corretas: somente em 1963 foi detectado vapor d'água na atmosfera de Marte, em quantidades traço (extremamente pequenas).

Edward Emerson Barnard, astrônomo do observatório de Lick, utilizou um telescópio refrator de 36 polegadas e, no ano de 1894, obteve excelentes vistas de Marte com grande detalhe, não conseguindo visualizar os canais de Schiaparelli. As regiões dos canais de Schiaparelli se mostraram descontínuas e não tinham nada de artificial. Barnard, que utilizou magnificações de 1000x, conseguiu as melhores vistas da superfície de Marte até então.

Outro opositor dos canais de Marte foi o astrônomo inglês Edward Walter Maunder. Ele fez experimentos que mostravam como a distância podia distorcer as imagens dos objetos de forma que uma linha de pontos poderia parecer como uma linha reta contínua. Isto explicaria porque alguns observadores tinha resolvido alguns dos canais como uma série de "lagos" em algumas raras ocasiões de grande visibilidade.

Em 1903, Maunder e J. E. Evans publicaram um artigo intitulado "Experiments as to the Actuality of the 'Canals' of Mars". Neste artigo, descreveram um experimento em que um disco com pequenos pontos desenhados era mostrado de várias distâncias para estudantes do colégio do Royal Greenwich Hospital. Eles pediram aos estudantes que desenhassem o que eles viam. A partir de uma certa distância eles desenharam os discos cobertos de canais. Entretanto, Lowell e aqueles que acreditavam nos canais não se impressionaram com a "teoria dos garotinhos".

Outros observadores começaram a contestar os canais Schiaparellianos. Por exemplo, Percy Braybrooke Molesworth, capitão da marinha inglesa a serviço na cidade de Trincomalee no Ceilão (atual Sri Lanka), observou Marte utilizando um telescópio de 12,5 polegadas. Ele relatou que a superfície do planeta era bastante irregular e cheia de detalhes que seriam difíceis de reproduzir. Por exemplo, os extensos maria (mares) se partiam em uma miríade de formas irregulares.

Lowell não se impressionou com estes relatos. E nem mesmo o fato de que suas observações de Júpiter e suas luas, Mercúrio e Vênus mostraram linhas e padrões imediatamente refutados por toda a comunidade científica abalou sua confiança. No final de 1906 ele publicou seu livro "Mars and Its Canals", onde descreveu sua observações e opiniões controversas sobre o planeta (inclusive que era habitado pelos construtores dos canais) e apresentava como evidência irrefutável da existência dos canais as fotos tiradas por seu assitente Carl Otto Lampland. Na época, não foi possível reproduzir as fotos no livro com o nível de detalhe necessário para discernir os canais. E além disso, dos muitos especialistas que examinaram as fotos, alguns afirmavam que elas mostravam canais e alguns discordavam. Outros, ainda, diziam que pareciam ser canais, mas que isto não significava que esta era uma reprodução de como a superfície de Marte realmente era.

Uma crítica ao livro de Lowell apareceu em seguida, quando Alfred Russel Wallace, naturalista que foi o co-descobridor da teoria da evolução natural junto com Charles Darwin, lançou seu livro "Is Mars Habitable?". Wallace não refutou as observações de Lowell, mas sim suas conclusões. Primeiro, ele mostrou que os cálculos de Lowell sobre a temperatura da Marte inferidos a partir da refletividade da Terra estavam errados e que as temperaturas na superfície do planeta eram bem abaixo do ponto de congelamento da água e não confortavelmente mornas. Depois, ele argumentou que mesmo que os canais ligassem as calotas polares às regiões equatoriais com o objetivo de distribuir água, nenhuma só gota chegaria ao seu destino devido à evaporação ou absorção no terreno árido.

Apesar do livro de Wallace e tantas outras evidências contrárias, o público em geral continuava a apoiar Lowell. Suas palestras viviam lotadas e eram grandes acontecimentos populares.

Na oposição de 1907, quando Marte estava muito ao Sul para ser observado adequadamente do hemisfério Norte, Lowell enviou seus assistentes com um telescópio de 18 polegadas para a cidade de Alianza no Chile com o intuito de fotografar o planeta. Novamente para Lowell as fotos mostravam claramente os canais. Vários jornais e revistas ofereceram grandes somas de dinheiro pelo direito de publicação exclusiva das fotos. No entanto, mais uma vez a qualidade da reprodução não era suficiente e as provas fotográficas da existência de canais permaneciam inconclusivas.

Havia grandes expectativas para a oposição de 1909, quando Marte não só estaria mais próximo da Terra como também em uma posição no céu mais adequada para observadores no hemisfério Norte e seus telescópios com aberturas ainda maiores que as de 1907.

Eugène Michael Antoniadi utilizou a "Grand Lunette", o telescópio refrator de 33 polegadas do observatório de Meudon na França, e obteve as mais impressionantes observações do planeta vermelho da era pré-espacial.

Antoniadi, que em 1896 havia se tornado diretor da Seção de Marte da Associação Britânica de Astronomia, colaborou com Flammarion em vários mapas de Marte, onde apareciam o sistema de canais de Schiaparelli. Nesta época ele acreditava totalmente na sua existência, mas sua opinião foi mudando gradualmente, conforme mostram seus relatórios para a Associação Britânica de Astronomia. Ainda mais quando sua crença nos canais foi abalada pela "descoberta" de Lowell e seus assistentes das marcas lineares "subjetivas", conforme Antoniadi as denominou, em Mercúrio, Vênus e nas luas jovianas.

Em 1909, antes de apontar a Grand Lunette para Marte, ele escreveu para Lowell em busca de conselhos para sua observação. Lowell respondeu que ele deveria utilizar um diafragma para diminuir a abertura do telescópio, devido à presença de descontinuidades no ar que faziam com que as imagens aparecessem borradas. Isto pode parecer absurdo, mas Lowell não estava totalmente errado. Estas descontinuidades existem e variam de tamanho, de milímetros a centenas de metros. Assim quanto maior o telescópio mais áreas turbulentas ele capta. Outro efeito não percebido por Lowell é a aberração cromática que todas as grandes lentes apresentam. Este efeito faz com que um planeta observado contra um céu escuro apareça cercado por uma névoa arroxeada que muito dificulta a percepção de detalhas mais finos. A utilização de um diafragma diminui este efeito.

No entanto, a carta de Lowell chegou depois que Antoniadi começou a observar Marte com a Grand Lunette. Na noite de 20 de setembro de 1909, houve uma inversão térmica em Paris e o ar sobre a cidade estava dividido em camadas que permaneceram estáveis por 7 horas, permitindo imagens de Marte simplesmente maravilhosas. Cinco dias depois desta noite marcante, Antoniadi escreveu uma carta para o secretário da Sociedade Astronômica Real na Inglaterra relatando que a superfície de Marte lhe pareceu muito semelhante à da Lua ou mesmo da Terra, conforme ele tinha observado certa vez de um balão a 12.000 pés de altura.

Como Antoniadi tinha feito suas observações utilizando a abertura total de seu telescópio de 33 polegadas, Lowell desacreditou seus desenhos e qualificou como "melhor" um desenho que Antoniadi havia classificado como "definição trêmula", onde apareciam canais, os quais Antoniadi afirmava só serem vistos em momentos quando a visão eram ruim. Outros desenhos que Antoniadi classificou como "moderado", "esplêndido"e "glorioso" foram desabonados por Lowell, que os considerou não muito bem definidos.

Em algumas outras noites naquele ano, Antoniadi obteve breves momentos de excelentes vistas de Marte, onde ele pôde compreender melhor as características dos desertos marcianos. Ele descreveu o solo como coberto por muitos nós escuros e campos com padrões xadrez. As estruturas eram tão complexas que Antoniadi nem tentou mapeá-las, mas chegou a desenhar um impressionante rascunho do que ele tinha visto para Lowell. A semelhança entre este rascunho e as imagens das faixas batidas pelo vento em torno das crateras de Marte mostradas pela imagens da Mariner 9 e da Viking são surpreendentes. Os canais eram nada mais que a borda irregular de áreas de um tom de cinza claro, faixas retorcidas e irregulares, bandas largas e irregulares, ou, ainda, grupos de sobreamento complexo. Nada parecidos com os artificialmente regulares canais de Lowell.

Mapa de Antoniadi

Depois de 1909, Marte passou por um ciclo de oposições menos favoráveis e nestes anos Lowell continuou observando o planeta através de telescópios de 24 e 40 polegadas e não viu nada que fizesse mudar sua opinião. Ele morreu em novembro de 1916, ainda acreditando na existência dos canais construídos pelos habitantes de Marte.

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