Projeto Ockham
A brincadeira do copo Conversando com os Mortos - A História da "Brincadeira do Copo"

por Widson Porto Reis mail
em 24/06/05

Declínio e queda do espiritualismo

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Apesar de contar com vários simpatizantes de peso entre os intelectuais - Sir Artur Conan Doyle, criador do frio e racional detetive Sherlock Holmes, foi um dos mais fervorosos - o movimento espiritualista também tinha muitos críticos. Os céticos diziam que os fenômenos espirituais não eram nada mais do que truques baratos de mágica e acusavam os médiuns de explorarem a fé e a dor dos que procuravam consolo na comunicação após a morte.

Se os médiuns não eram mais do que mágicos mal intencionados, nada melhor do que outro mágico para desmacará-los. E assim iniciou-se a tradição - que se mantêm até hoje - de mágicos devotados a expor os falsos fenômenos paranormais. Alguns nomes ficaram muito famosos, como John Nevile Maskeylne e Alexander Herrmann, mas nenhum causou mais baixas ao espiritualismo do que aquele que foi o maior mágico de todos os tempos: Harry Houdini.

Houdini tinha uma experiência amarga com o espiritualismo. Certa vez, depois de muita relutância, ele permitira que Lady Doyle, a esposa de Conan Doyle, de quem era grande amigo, canalizasse as mensagens de sua mãe, que havia falecido recentemente. A mensagem que Lady Doyle transmitiu a Houdini estava em inglês e o chamava de "Harry". O único problema é que a mãe de Houdini nunca o chamava de Harry - que era apenas seu pseudômino artístico - e não falava uma palavra de inglês! Lady Doyle, até onde Houdini podia afirmar, era uma mulher honesta, que possivelmente acreditava realmente poder se comunicar com os mortos, mas Houdini sabia que outros médiuns estavam deliberadamente explorando a dor dos vivos. Houdini sabia bem demais disso; ele também já tinha praticado aqueles mesmos truques no início de sua carreira (o que lhe causou grande arrependimento pelo resto da vida). Por isso, e também para dar um impulso extra à sua carreira, que já não permitia as extravagâncias físicas da juventude, Houdini se tornou o arquiinimigo dos médiuns.

Houdini costumava comparecer disfarçado às sessões mediúnicas, acompanhado de um jornalista e um policial à paisana. Assim que a sessão tinha início e o "espírito" se manifestava, Houdini se revelava e expunha todos os truques do médium, para grande revolta e embaraço dos presentes. O médium era preso e a notícia saía com grande destaque no jornal do dia seguinte. As "batidas céticas" de Houdini eram tão populares que ele foi convidado a fazer parte do comitê permanente da revista Scientific American que investigava médiuns famosos. A revista oferecia um prêmio de 2.500 dólares, que Houdini depois aumentou para 10.000, para o médium que conseguisse produzir alguma manifestação espírita que Houdini não pudesse desmascarar (hoje em dia, o mágico James Randi elevou o prêmio para um milhão de dólares - desafio que nosso paranormal local, Thomaz Green Morton, "O Homem do Rá", aceitou há alguns anos e depois desistiu). Enquanto desmascarava médiuns pelo país, Houdini percorria universidades, igrejas, academias de polícia e convenções, demonstrando como os espiritualistas realizavam seus truques.

Como expoente do movimento espiritualista, as irmãs Fox foram várias vezes investigadas por céticos. Elas foram acusadas de produzir os sons atribuídos aos espíritos com os joelhos, tornozelos, pés e até por meio de ventriloquismo, mas a despeito dos esforços dos diversos comitês de investigação ninguém nunca provou nada, ao menos definitivamente. É bem verdade que muitos desses comitês investigativos eram formados por nada mais que "honrados membros da comunidade", escolhidos antes por sua posição de destaque na comunidade do que por sua proficiência em ciência ou mágica. Também é verdade que as respostas das meninas, obtidas através dos espíritos, eram muitas vezes bastante imprecisas, especialmente quando recebiam os espíritos dos "famosos". Sobre isso, conta-se que certa vez, durante uma sessão, um dos participantes levantou-se inconformado com os erros gramaticais das mensagens que supostamente estavam sendo enviadas por Benjamim Franklin, um grande intelectual em vida. Entretanto, isso não parecia afetar a credibilidade das meninas, que continuaram se apresentando por muito tempo.

O declínio das Fox veio afinal em 1888, junto com todo o resto do movimento espiritualista. Alcóolatras, pobres e,, sobretudo, profundamente magoadas com a irmã Leah, a quem acusavam de ter gastado todo o dinheiro ganho às suas custas e de ter conspirado para retirar a guarda dos filhos de Maggie, as irmãs decidiram que era hora de contar toda a verdade. Depois de uma declaração ao jornal New York Herald, Maggie reuniu a imprensa e, diante do salão lotado da Academia de Música de Nova Iorque, demonstrou como utilizava o dedão do pé para produzir os "sons dos espíritos". Maggie revelou que ela e Kate tinham aprendido a estalar os dedos dos pés quando crianças e que usaram esta habilidade para pregar uma peça em seus pais naquela noite em Hydesville. Segundo ela, a travessura, que era para ser apenas um trote de primeiro de abril adiantado, acabou saindo do controle e enveredou por um caminho sem volta quando a irmã Leah as obrigou a se apresentar como médiuns. A confissão das Fox não obteve o efeito esperado sobre a irmã, que a essa altura, tendo conquistado um bom casamento e uma posição de destaque na sociedade, queria distância do circo espiritualista. Talvez por isso, passado algum tempo Maggie e Kate se arrependeram, negaram tudo o que tinham dito e tentaram retomar o ganha-pão com o trabalho de médiuns. Mas já era tarde, nenhuma das duas resisitiu ao escândalo: Kate morreu em 1892 e Maggie no ano seguinte.

Ao final, mais do que a confissão das irmãs Fox e os numerosos escândalos de fraude, o que determinou a decadência do movimento espiritualista foi o seu próprio exagero. Mesas que levitavam, aparições fantasmagóricas, mensagens redigidas sozinhas e materializações começaram a parecer dramáticas e inacreditáveis demais para o século XX. Ainda assim, o fenômeno espiritualista experimentaria um revival durante a primeira guerra mundial, com seu novo contingente de mortos, e mais tarde nos anos 80 com o surgimento do movimento New Age, quando os médiuns revelaram capacidades, até então inexploradas, de contactar alienígenas e espíritos de sociedades míticas, como a Atlântida.

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