Projeto Ockham
A brincadeira do copo Conversando com os Mortos - A História da "Brincadeira do Copo"

por Widson Porto Reis mail
em 24/06/05

Os tabuleiros falantes

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Logo depois do "telégrafo espiritual" inventado pelas irmãs Fox, o primeiro método utilizado pelos médiuns para se comunicar com os mortos foi a "mesa girante" (table turning). Um grupo de pessoas se sentava ao redor de uma mesa (quanto mais leve melhor) apoiando seus dedos sobre ela. Feitas as invocações espirituais iniciais, a mesa logo começava a balançar e girar batendo com suas pernas no chão; as pancadas eram transformadas em sinais: uma pancada para "sim", duas para "talvez" e três para "não". Era demorado e um tanto entediante, mas em uma época sem grandes passatempos as mesas girantes se tornaram uma verdadeira mania.

Mesas saltitantes eram uma maneira bastante barulhenta e um tanto inconveniente para que os espíritos transmitissem longas mensagens e novas tecnologias foram desenvolvidas. Uma base em forma de coração com rodinhas e um lápis acoplado, na qual o médium apoiava sua mão se tornou bastante popular em 1860. A planchette, como era conhecida, tinha a desvantagem de que os garranchos produzidos eram quase impossíveis de serem lidos, mas era simples e barata e vendeu como pão quente nas mãos das companhias de brinquedos. Na Inglaterra, a planchette ganhou uma variante, o Physio-Psychophone, misto de redator espiritual com biscoito da sorte, em que a prancha de madeira deslizava sobre uma folha onde se lia conselhos do tipo: "concentre-se no presente para melhorar seu futuro". É curioso notar que, a despeito de sua imagem claramente mística, a planchete nunca foi vendida como um meio de comunicação espiritual, mas sim como um brinquedo.



É verdade que muitos médiuns dispensavam instrumentos intermediários, redigindo diretamente as mensagens psicografadas ou as transmitindo oralmente em um estado alterado de transe. Mas para os médiuns menos habilidosos havia outras maneiras de se travar conversas espirituais. Em 1853, o espiritualista Isaac T. Pease patenteou o que chamou de Telégrafo de Discagem Espiritual, que consistia em um disco com letras inscritas na periferia e um ponteiro que se movia sob influência do médium. Inúmeras variantes desse aparato foram inventadas, tornando-se conhecidas genericamente por Comunicadores Espirituais Telepáticos. É interessante notar que houve algumas tentativas de criar aparelhos que fossem operados às cegas pelos médiuns, isto é, que eliminassem a possibilidade do operador influenciar consciente ou inconscientemente a mensagem. O mais notório desses instrumentos foi criado em 1855 pelo eminente professor Robert Hare, que de crítico contumaz havia se convertido em ardente defensor do espiritualismo (para grande desagrado da comunidade científica). Mas mesmo que esses aparatos ainda permitissem algum grau de manipulação - o médium experiente podia ler a expressão corporal de seu cliente como em um jogo de pôquer (um método conhecido por "leitura fria") - infelizmente eles não foram muito populares entre os médiuns; em 1861, quando Alan Kardec, pai do espiritualismo francês, conduziu as entrevistas com os espíritos que resultaram na bíblia espírita "O Livro dos Espíritos", ele escolheu um comunicador espiritual telepático clássico (similar ao PYTHO or The Thought Reader da figura).

 Assim era o estado dos comunicadores espirituais, até que em 1886 algo novo surgiu: o Tabuleiro Falante (talking board). A novidade consistia em um tabuleiro com as letras do alfabeto, algarismos e algumas palavras como "sim", "não" e "boa noite". O tabuleiro era apoiado no colo de duas pessoas, que por sua vez apoiavam seus dedos sobre uma pequena tábua de quatro pés (uma planchette), que então deslizava sobre as letras.




A maioria dos primeiros tabuleiros falantes era artesanal e algumas pessoas utilizavam um copo de vinho no lugar da pequena tábua deslizante. Mais tarde, esse tabuleiro improvisado com o copo passou a ser conhecido como "Ask the Glass" (pergunte ao copo) ou "The Spirit of the Glass" (o espírito do copo) ou ainda "The Moving Wineglass" (o copo de vinho que se move).

O primeiro modelo comercial de um tabuleiro falante viria alguns anos depois, em 1898, quando Charles Kennard, William Fuld e sócios patentearam o Ouija Board (tabuleiro Ouija). Diz a lenda que o nome ouija foi obtido através do próprio tabuleiro como sendo a palavra em egípcio para "sorte". Como Ouija não significa sorte em egípcio nem em nenhuma outra língua (desse mundo pelo menos), o mais provável é que a palavra tenha sido escolhida como uma mistura das palavra sim em francês ("oui") e em alemão ("ja").

O tabuleiro Ouija foi um sucesso estrondoso. Até 1950, quase todo lar americano possuía um. Mais do que uma mania, ele foi um desses itens que se tornam parte da cultura popular, como a boneca Barbie ou o Halloween . O jogo já apareceu em vários filmes de Hollywood - não podemos esquecer a ponta sinistra que fez em "o Exorcista" que levou muita gente a jogar seus tabuleiros pela janela - em músicas, na televisão e na literatura. Hoje o tabuleiro Ouija é fabricado nos EUA pela mesma empresa que fabrica os populares jogos Banco Imobiliário (Monopoly) e Scrabble e vendido ao lado deles nas estantes das lojas de brinquedos. Em suas centenas de encarnações e imitações, houve tabuleiros para todos os gostos: modelos coloridos para as meninas (Ouija Queen), tabuleiros rosa-choque com mensagens picantes para apimentar sua vida sexual (Psychic Sex Board, coisa dos anos 70), tabuleiros que brilhavam no escuro, tabuleiros com símbolos de tarô, astrologia, pirâmides e até símbolos católicos (não deixe de visitar o fantástico Museum of Talking Boards). Por algum motivo, supersticioso ou religioso talvez, o jogo nunca foi lançado no Brasil. Mas isso não é um problema; nestes tempos de internet você não precisa nem mesmo possuir o tabuleiro para jogar; chame seus amigos, substitua o copo por um mouse sem fio e faça a brincadeira on-line.




Apenas alguns dentre as dúzias de tabuleiros Ouija que foram lançados até hoje (fonte)

Mas o que é o tabuleiro Ouija afinal? apenas "um Scrabble com atitude", como alguém já o definiu, ou uma maneira menos nobre e até perigosa de comunicação com os mortos, como insistem alguns espiritualistas? Vamos agora ouvir o que a ciência tem a dizer.


Judy Jetson, Jan (a ajudante mascarada do Space Ghost) e Didi (a irmã de Dexter) reunidas em torno do tabuleiro Ouija: "Se há algum fantasma presente, apareça!". No quadro seguinte, Didi, em seu pijaminha, diz ao Space Ghost (Fantasma do Espaço): "Eeek! proibido garotos!" (fonte)

Explicando o fenômeno - O efeito ideomotor
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