Projeto Ockham
A brincadeira do copo Conversando com os Mortos - A História da "Brincadeira do Copo"

por Widson Porto Reis mail
em 24/06/05

A maldição da brincadeira do copo

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Dê uma volta pela internet e você verá todo o tipo de histórias de arrepiar o cabelo sobre o tabuleiro Ouija e a brincadeira do copo. São histórias de pessoas que, depois da brincadeira, sofreram desilusões amorosas, se envolveram com drogas, perderam o emprego a sanidade e, nos piores casos, a vida. Há histórias cabeludas de espíritos que jogaram o copo longe, espíritos que se identificaram como o próprio Satã (essa é, de longe, a mais comum) e possessões com direito a vozes distorcidas, olhos virados e tudo o mais do gênero (veja aqui e aqui).

 Mas já vimos que o tabuleiro Ouija nem sempre teve esta fama sinistra. Pelo contrário, ele já foi, e para muitos continua sendo, um entretenimento para toda a família. No final do século XIX e início do XX, as pessoas se reuniam em torno de um tabuleiro Ouija da mesma maneira que nos reunimos hoje em torno da TV para assistir a um filme. Ele foi até capa da popular revista semanal Saturday Evening Post, em sua edição de maio de 1920, em uma ilustração do badalado artista Norman Rockwell. Mas então como o tabuleiro Ouija ganhou sua reputação macabra?

A culpa é de Hollywood. Se você pensar bem, verá que, assim como os índios e alienígenas, espíritos quase sempre fizeram o papel de vilões no cinema (até agora os espíritos ficaram de fora da onda revisionista politicamente correta americana). De fato não há muitos filmes sobre espíritos bonzinhos (bem, há Gasparzinho...). E qual a melhor maneira de entrar em contato com um espírito zangado prestes a matar todo o elenco do que usando o bom e velho tabuleiro Ouija? Veja "Amytiville 3D" (1983), por exemplo. Nele Meg Ryan, em um de seus primeiros papéis, pergunta ao copo: "há alguém nesta sala que esteja em perigo". Adivinhe a resposta. Essa é mais ou menos a mesma coisa que Michelle Pfeifer quer descobrir no filme "A Verdade Escondida" (2000) quando se tranca no banheiro com um tabuleiro Ouija comprado no K-Mart. Fundamental para a péssima imagem do tabuleiro foi a trilogia "O Espírito Assassino" (Witchboard, 1985). No primeiro deles, uma menina é possuída por um espírito maligno depois de brincar com um tabuleiro Ouija, abandonado durante uma festa (alguém havia esquecido de realizar o logout espiritual). Esse bom filme contêm todos os elementos que estereotiparam o Ouija: adolescentes irresponsáveis brincando com o que não deveriam, possessões demoníacas, sangue aos borbotões, etc. Outro filme com exatamente o mesmo tema (e os mesmos clichês), mas em uma perspectiva inglesa, é o elogiado "O Jogo dos Espíritos" (Long Time Dead, 2000): durante uma rave alguns jovens decidem brincar com o Ouija. A brincadeira vai pelo ralo quando o tabuleiro soletra "ALL DIE"... A longa tradição de filmes de terror adolescentes com o tabuleiro Ouija está longe de terminar. O último deles vem da Coréia (do oriente, aliás, vêm os melhores filmes de terror da atualidade, caso você não saiba) e na tradução para o inglês recebeu justamente o título de "Ouija Board" (Bunshinsaba, 2004). Três adolescentes, cansadas de serem importunadas na escola, invocam uma maldição sobre as colegas através do tabuleiro. O resto só saberemos quando o filme aportar por aqui, provavelmente refilmado por Hollywood. Mas foi "O Exorcista" (1973), talvez o fime mais assutador de todos os tempos (era comum que as pessoas abandonassem o cinema no meio do filme), que estigmatizou de maneira definitiva o tabuleiro Ouija. Logo no início do filme, a menina Regan explica para sua mãe como usa o tabuleiro para conversar com seu amigo invisível, o Capitão Howdy. Mais tarde descobre-se que o Capitão Howdy é o próprio Satã, que usa o inocente brinquedo para possuir o corpo da menina. Depois desse filme ninguém nunca mais olharia para um tabuleiro Ouija da mesma maneira...



Com toda esta atmosfera sinistra criada pelo cinema, e devidamente alimentada pelos espiritualistas, não é de estranhar que as crianças e jovens responsabilizem o tabuleiro Ouija por qualquer acontecimento fora do normal ocorrido depois da brincadeira. E uma vez que o movimento da planchete ou do copo é causado por uma ação muscular involuntária e essa ação é guiada pela expectativa de quem o toca, é natural que palavras como "morte", "Satã", "Hitler" e outras do gênero emanem tão freqüentemente da brincadeira. No Brasil, onde o tabuleiro Ouija nunca foi lançado e a brincadeira do copo é transmitida exclusivamente pelo boca a boca, juntamente com suas histórias macabras, o mito é alimentado em um círculo vicioso ainda maior. Visto dessa maneira, o alerta dos espiritualistas de que os espíritos que respondem à brincadeira do copo são maldosos e zombeteiros se parece mais com uma explicação ad hoc para o porquê das mensagens serem tão assustadoras quanto vagas.


Outra aparição do Ouija na cultura popular. Aqui uma brincadeira com o Google; repare no detalhe "Estou sem sorte".

Conclusão
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