Projeto Ockham
O homem na Lua O homem não foi à Lua?

por Widson Porto Reis mail
em 20/03/05

Os argumentos físicos (I)

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Por que a bandeira está tremulando se não há vento?
Que fraude descuidada seria aquela que mostrasse uma bandeira tremulando ao vento como em uma praia, quando até uma criança sabe que não há vento na Lua. Pois os conspiracionistas defendem que em plena gravação da farsa, um assistente distraído deixou a porta do estúdio aberta; um ventinho fortuito entrou e... ninguém percebeu até ser muito tarde!

Farsa ou não, a verdade é que, ao contrário do que dizem os conspiracionistas, só é possível ver a bandeira americana balançando ou quando o astronauta tenta fincá-la no solo -- que era bem mais duro do que eles imaginavam -- rodando sua haste de um lado para o outro como uma barraca de praia, ou imediatamente depois de fazer isto, quando a haste flexível da bandeira ainda tinha algum movimento residual (muito pouco atenuado no vácuo lunar). Nas demais cenas o pano da bandeira parece balançar, mas está apenas artificialmente esticado.

Assim como eu e você, os engenheiros da NASA também sabiam que um pedaço de tecido não se manteria esticado na ausência de vento, por isso dotaram a bandeira de uma haste articulada horizontal (que pode ser vista claramente na foto acima). Na primeira missão os astronautas não conseguiram armar completamente esta haste e foram obrigados a manter a bandeira semi-esticada como uma persiana. O problema é que gostaram tanto do efeito que o repetiram propositalmente nas outras missões. É irônico que a tentativa de imitar a realidade terrestre tenha criado dúvidas sobre a realidade lunar...

Para saber mais sobre a bandeira americana na Lua, incluindo os aspectos políticos de se usar uma bandeira representando os EUA e não o mundo, leia o artigo "Where No Flag Has Gone Before: Political and Technical Aspects of Placing a Flag on the Moon".

Que filme fotográfico é este, que resiste a temperaturas tão elevadas?
Apesar de estar quase à mesma distância do Sol do que a Terra, a Lua não possui uma atmosfera para filtrar os raios solares. Como a luz solar atinge diretamente a superfície, a temperatura durante o dia lunar pode passar tranqüilamente de 100°C. Um dos principais argumentos dos conspiracionistas é de que não existe até hoje um filme fotográfico que resista à estas temperaturas. Para provar este argumento Bill Kaysing costuma contar a história de um amigo que colocou o filme de sua máquina dentro de um forno e o derreteu completamente.

Em primeiro lugar, ao contrário do que pensam os conspiracionistas, os cientistas da NASA são razoavelmente espertos e, pelo mesmo motivo que os beduínos não cruzam o deserto do Saara ao meio dia, também os astronautas não foram à Lua com o Sol a pino, mas em uma manhã lunar (lembrando que o dia lunar dura duas semanas terrestres), com a temperatura bem mais baixa.

Em segundo lugar é preciso entender que 100 graus na Lua são bem diferentes de 100 graus dentro de um forno, como pensa o ingênuo Kaysing. No interior de um forno o calor é conduzido através do ar por condução (o ar aquece o que está em contato com ele) e por convecção (o ar quente sobe e o frio desce), mas sem ar a única maneira que resta para transmitir o calor é através de irradiação, ou seja, a luz precisa incidir sobre o material para aquecê-lo. Por isso, ao mesmo tempo que no vácuo lunar a temperatura é muito alta também é relativamente fácil manter algo resfriado, basta utilizar um recipiente branco ou espelhado que reflita a maior quantidade possível da luz incidente. Assim, pelo mesmo motivo que na Terra as caixas de isopor são brancas e as garrafas térmicas têm seu interior espelhado, na Lua a câmera fotográfica era mantida em um compartimento refratário à luz (isso também explica porque a roupa dos astronautas era branca).

É claro que por mais bem protegido que fosse, o filme levado à Lua ainda precisaria resistir à temperaturas mais altas do que o normal para os padrões terrestres, por isso não foi, como você já deveria esperar, comprado em uma lojinha de Houston, mas projetado sob medida para a NASA pela Kodak. Se você ainda não encontra este filme para comprar naquela lojinha de Houston é porque o turismo espacial ainda não é muito popular.

Pegadas na Lua?
Se você já caminhou em uma praia, notou que suas pegadas ficavam muito mais nítidas na areia úmida do que na areia seca e fofa. De fato, na Terra as pequenas gotas d'água funcionam como aglutinador para as partículas de areia permitindo que se mantenham coesas. Mas e na Lua? Sem umidade, como se formaram aquelas pegadas tão bem definidas dos astronautas?

Aqui a questão é um pouco mais complicada. O solo lunar é formado em sua maior parte de silicatos, uma categoria de material que forma longas cadeias de moléculas. Quando estas cadeias são rompidas, digamos, pelo impacto de uma bota, suas extremidades ficam livres para se combinar com outros elementos. Na Terra elas rapidamente se combinariam com o oxigênio do ar formando óxidos (processo conhecido por oxidação), mas na Lua, sem uma atmosfera gasosa, as partículas acabam por se recombinar com as outras partículas vizinhas deslocadas pelo impacto, como se fossem - mal comparando - um longo velcro de moléculas que se rearruma.

Por que não há poeira sobre os trens de pouso do módulo lunar?
É de se imaginar que os gases expelidos pelos foguetes do módulo lunar durante sua descida tivessem jogado para o alto uma grande quantidade de poeira. A ausência de pó sobre o trem de pouso seria a prova de que o módulo lunar foi cuidadosamente posicionado em sua locação.

Como se vê, há alguma poeira. Mas não tanta quanto gostariam os conspiracionistas.

Novamente os conspiracionistas parecem usar conhecimentos físicos adquiridos nos filmes de ficção científica. Pois pelo mesmo motivo que não há explosões ruidosas e esfumaçadas no espaço quando uma nave do Império atinge um caça Rebelde, no vácuo lunar não há como a poeira permanecer flutuando em suspensão até eventualmente se depositar sobre uma superfície; sem a resistência do ar toda a poeira que tivesse sido deslocada pelos foguetes cairia tão rapidamente quanto uma pedra. Ainda mais importante: como os foguetes do módulo lunar não produziam nenhum deslocamento de ar (pois não há ar) as únicas partículas de poeira que se moveram foram aquelas diretamente no caminho dos gases expelidos. A situação é completamente diferente de um helicóptero pousando em um deserto, com toda aquela turbulência criando redemoinhos de areia.

A idéia de uma descida espalhafatosa fez com que os conspiracionistas esperassem ver uma grande cratera sob os foguetes do módulo lunar. Bem, as fotos mostram marcas, mas elas não são tão fundas quanto os leigos gostariam. Para explicar a falta de marcas profundas é preciso lembrar que o módulo lunar possuía sensores na forma de cabos em 3 das 4 plataformas de pouso. Quando um destes cabos tocava o solo uma sinal era enviado à cabine de comando indicando ao piloto que era o momento de desligar os jatos. Como o módulo lunar atingia o solo com seus foguetes desligados, as marcas de aterrisagem e a poeira geradas foram muito menores do que a fantasia pressupõe.

Como o Módulo Lunar conseguiu decolar de volta?
No país em que todos são técnicos de futebol também há alguns cientistas espaciais. Alguns deles, como o autor do site www.afarsadoseculo.com.br, olham para o módulo lunar e audaciosamente escrevem: "Você crê que aí dentro há combustível suficiente para alimentar um propulsor?"

A gravidade na Lua, como você já foi ouviu falar é 6 vezes menor do que na Terra. Isto significa que a velocidade para que alguma coisa, qualquer coisa, escape da superfície da Lua é muito mais baixa do que na Terra; tão baixa na verdade que a Lua não consegue manter nem sequer umas poucas moléculas de gás para formar uma atmosfera; escapam todas para o espaço. Por isso não foi preciso muito combustível para impulsionar o módulo lunar; bastava um "empurrãozinho" para lançá-lo de volta à Terra. Além disso, como não há atmosfera na Lua também não há resistência do ar nem a necessidade de que o módulo lunar fosse aerodinâmico.

Os argumentos físicos (II)
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