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A Superstição (Françoise Askevis-Leherpeux)
Já se perguntou como alguém pode acreditar em (coloque aqui a pseudociência ou crendice do momento)? Neste livro, um professor da Universidade de Paris tenta responder esta pergunta e suas conclusões são supreendentes. O termo superstição em dicionários e enciclopédias está sempre associado a crendices populares e à religião. Por exemplo, no Dicionário Universal - Língua Portuguesa, temos a seguinte definição: "sentimento religioso erróneo que induz a criar falsas obrigações e que leva à prática de deveres absurdos ou imaginários; excessiva credulidade; crendice; preconceito".
O professor Askevis, na primeira parte de seu livro, procura definir a superstição a partir de exemplos citados por pessoas comuns, psicólogos, religiosos e cientistas e chega a conclusão que a superstição é definida sempre em oposição ao establishment científico ou religioso. Em suas próprias palavras: "As crenças que, numa determinada época, vão de encontro a doutrinas e práticas atestadas pelas frações dominantes da comunidade científica e/ou comunidade religiosa culturalmente mais importante". Assim, estão incluídas desde a crença que gatos pretos dão azar a crença em pseudociências.
Na segunda parte, Askevis revisa o trabalho de vários pesquisadores do assunto (Malinoswiski, Frazer, Skinner, Jung, Freud e outros) e verifica que a maioria das teorias sobre o porquê acreditar em coisas sem fundamento afirmam que certos estados de ansiedade (medo do futuro, não ter controle total sobre o que acontece na sua vida, etc) são a base de rituais supersticiosos que aliviam esta tensão ao criar um estado de controle das coisas.
Lembrando que as pseudociências (Askevis utiliza o termo paraciências) estão aqui incluídas, é facilmente compreendido porque as pessoas acreditam em coisas tão absurdas como leitura da mão ou shamanismo. Estas práticas trazem um alívio para aflições sobre o que o futuro trará e também a promessa de cura quando os médicos já deixaram claro que as chances são poucas.
Na terceira parte do livro, são apresentados pesquisas que procuram definir quem é supersticioso, levando em consideração variáveis como idade, sexo, anos de estudo e histórico familiar. Assim, descobrimos que as mulheres são mais supersticiosas que os homens, principalmente no que diz respeito à vida íntima e que a diferença diminui nos meios universitários, o que leva a crer que a maior superstição entre elas é um fator cultural/educacional. Também encontramos uma grande taxa de adesão à superstição no meio urbano, entre a classe média e nas profissões de risco de vida. E, surpreendentemente, não está relacionada a grau de instrução ou conhecimento científico.
É um livro pequeno, pouco menos de 100 páginas, algumas vezes um pouco formal demais, mas um pouco de afinco garante excelentes insights sobre este assunto controverso. Publicado em português pela Editora Ática.
Ana Luiza Barbosa de Oliveira

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