Projeto Ockham
Triângulo das Bermudas O Triângulo das Bermudas

por Widson Porto Reis mail
em 27/01/07

Descontruindo o Mistério

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O livro "The Bermuda Triangle Mystery - Solved" (O Mistério do Triângulo das Bermudas - Solucionado) de Lawrence David Kusche, lançado quase simultaneamente com o livro de Berlitz é até hoje a obra definitiva para desconstruir o mito do Triângulo das Bermudas. Se Berlitz fundou o mistério, Kusche o trouxe abaixo.

Kusche investigou cuidadosamente cada um dos casos relacionados ao Triângulo das Bermudas, confrontando as histórias popularizadas por Berlitz com os documentos históricos e relatórios da Marinha e da Guarda Costeira.A conclusão de Kusche é que o que não foi completamente inventado por Berlitz foi no mínimo exagerado.

Por exemplo, muitos dos desaparecimentos creditados por Berlitz ao Triângulo das Bermudas nem mesmo ocorreram em seu interior. Este é o caso do Freya, que Berlitz afirma ter afundado no Triângulo mas que na verdade foi abandonado no Pacífico em 1902 e do Globemaster, que na realidade afundou na costa da Irlanda em 1951. Outros realmente cruzaram o Triângulo das Bermudas mas não se pode afirmar com segurança que desapareceram nele. Este é o caso do Atlanta, navio que, a rigor, pode ter desaparecido em qualquer lugar entre as Bermudas e a Inglaterra e do Star Ariel, que poderia muito bem ter afundado próximo à Jamaica. Segundo Kusche, se você marcar todos os desparecimentos atribuídos ao Triângulo das Bermudas em um globo verá que o Triângulo abrange quase todo o norte do Oceano Atlântico. O mágico e desbaratador de mistérios James Randi, fez ainda melhor em seu livro Flim Flam - Médiuns, ESP, Unicórnios e outros delírios: marcou em um mapa os mais misteriosos casos atribuídos ao Triângulo das Bermudas. Veja o resultado e tire suas conclusões:

Quanto aos desaparecimentos que realmente ocorreram dentro da região delimitada pelo Triângulo das Bermudas, Kusche mostrou que eles se tornam muito menos misteriosos quanto se conhece os importantes "detalhes" geralmente omitidos por Berlitz e outros autores e quando se despe as histórias de seus floreios rocambolescos que ajudam mais a vender livros do que a descobrir a verdade. Acompanhe a seguir.

Esclarecendo o mistério do Vôo 19
O tenente instrutor Charles Carroll Taylor, comandante do Vôo 19, era um piloto experiente com mais de 2500 horas de vôo, mas que acabara de ser transferido para Fort Lauderdale. Alem de não conhecer a região das Bermudas, Taylor já tinha ficado perdido em outras missões e certa vez levara dois aviões a fazerem um pouso forçado no Oceano Pacífico. É bom lembrar que voar naquela época, sem GPS e sofisticados computadores de bordo, era uma tarefa muito mais difícil. O piloto precisava estar todo o tempo atento à bússola e à velocidade do avião, medindo o tempo de vôo com um relógio para que pudesse calcular sua posição. Quando perdido, era preciso pedir socorro pelo rádio e tentar localizar um ponto proeminente no relevo, o que é presumivelmente bastante difícil em pleno oceano ou com clima adverso.

O plano da missão do Vôo 19 determinava que a patrulha saísse de Fort Lauderdale e, depois de um exercício de treinamento sobre as ilhas Hens and Chickens Shoals, retornasse à base seguindo a trajetória triangular indicada pela linha pontilhada da figura 1. As gravações das comunicações entre os aviões e a base mostram que em algum ponto do vôo Taylor descobriu-se perdido e se convenceu de que voava sobre as ilhas Florida Keys, distantes centenas de quilômetros dali, no Golfo do México. A partir daí todas as decisões que tomou foram baseadas nesta premissa.

Mas o que levou Taylor a cometer um erro tão grosseiro? Acredita-se hoje que logo após o exercício, empurrado para o norte pelo vento, os pilotos não foram capazes de ver a ilha Cistern Cay, que deveriam usar como referência do vértice de sua rota. Em vez disso confundiram-na com a Great Abaco, muitos quilômetros à frente (figura 2) e só aí mudaram de rota, seguindo para o norte. Se estivesse na rota certa Taylor deveria cruzar com a Grand Bahama à sua frente, mas em vez disso via uma grande extensão de terra que parecia ser a Bahama à sua direita. Isso o levou a concluir que as duas bússolas do seu avião estavam quebradas.




A sequência de imagens mostra a hipótese mais provável para o fato do piloto do Vôo 19 ter ficado perdido.

Ao atingir o norte da Great Abaco e mudar novamente de rota Taylor parece ter confundido a sucessão de ilhotas que via à sua direita com a formação muito similar das ilhas Florida Keys (figuras 3 e 4).

Acreditando estar no Golfo do México (figura 5), Taylor mudou o rumo do vôo diversas vezes em busca de terra firme, ignorando os avisos de seus subordinados e as instruções da base em Fort Lauderdale, conduzindo a esquadrilha cada vez mais distante da costa e para fora do alcance do rádio (figura 6).

Durante todo este tempo a comunicação com o Vôo 19 foi seriamente prejudicada pelas transmissões cubanas e pelo mau tempo que se aproximava. Mesmo assim Taylor ignorou teimosamente os repetidos pedidos da base para passar o rádio para a frequência de emergência (3000 kHz). Aparentemente Taylor temia que os outros pilotos não fossem capazes de se manter na mesma frequência e a esquadrilha não conseguisse permanecer unida. Tivesse trocado a frequência e Taylor poderia não só ter obtido um sinal livre da estática produzida pela rede cubana, como contado com ajuda mais ampla, já que todas as estações em terra estavam equipadas com a frequência de emergência mas poucas delas podiam utilizar a frequência militar reservada.

Depois de horas voando a esmo sob o tempo cada vez pior, finalmente veio a noite. Já sem combustível, os cinco aviões não tiveram outra alternativa a não ser arremeter na escuridão contra o oceano crispado pelos fortes ventos. Mesmo que os pilotos pouco experientes conseguissem realizar um pouso bem sucedido em tais condições, o TBM Avenger não era projetado para flutuar e afundaria rapidamente nas águas geladas, a centenas de quilômetros da região onde se desenrolava a maior operação de busca da história.

Kusche alega que o relatório final da Marinha concluía pela responsabilidade de Taylor no acidente, mas este foi modificado em consideração à família do piloto. Seja como for, o fato é que uma série de circunstâncias colaboraram para o acidente: o fato de que os aviões não estavam equipados com relógios (e Taylor não ter levado um relógio de pulso), a recepção ruim dos rádios dos aviões agravada pela opção de Taylor em não usar o rádio de emergência, a demora da Força Aérea, que só lançou mão dos aviões de resgate quando o vôo estava irremediavelmente fora de alcance, a extrema disciplina dos aviadores-alunos que permaneceram fiéis ao seu comandante mesmo quando estava bastante claro que ele os estava levando na direção errada, o fato do Vôo 19 ser o último vôo programado para aquele dia e, logicamente, o mau tempo.

Quanto ao avião enviado no resgate do Vôo 19 que desapareceu tão misteriosamente quanto ele, o mais provável é que tenha explodido em pleno vôo alguns minutos após a decolagem. O Martin Mariner tinha o apelido de "Tanque de Óleo que Voa" devido ao escapamento de gases em seu interior. Nas condições certas, bastaria um cigarro aceso para provocar uma explosão. De fato diversas testemunhas relataram terem visto o que pareceu uma explosão no céu na mesma posição do radar no qual o hidroavião desapareceu e vestígios de óleo na água foram encontrados no local.

Os outro casos
No mesmo dia do desaparecimento do Sulphur Queen, turistas na costa de Cuba relataram um forte cheiro acre que poderia ser atribuído a carga de enxofre do Sulphur Queen. Baseado em relatórios que apontavam para problemas estruturais naquele tipo de cargueiro, a guarda costeira apontou como uma das prováveis causas do acidente um vazamento súbito de gás, que teria impedido a tripulação de pedir socorro pouco antes de uma explosão. Bem ao contrário do que escreveu Berlitz em seu livro, vários destroços foram encontrados, como mostra a foto abaixo. Já o fato de que nenhum corpo foi encontrado não é surpresa, considerando-se que a área do acidente é infestada de tubarões.


Ao contrário do que afirmou Berlitz, o Sulphur não desapareceu sem deixar vestígios.

Já o DC-3, desaparecido a 50 milhas de Miami após um contato normal com a torre, tinha relatado problemas com suas baterias. Em vez de recarregar as baterias no solo, o piloto preferiu partir sem demora e recarregá-las durante o vôo. Não se sabe ao certo o que aconteceu, mas a comissão que investigou o acidente suspeita que logo após sua última comunicação o DC-3 teve uma pane elétrica que deixou fora de operação o rádio e as bússolas automáticas. Sem rádio, o piloto não pode ser avisado do mau tempo que se aproximava. Voar em condições de clima adverso sem rádio e sem bússolas é uma boa maneira de ficar perdido.

Para os outros desaparecimentos que ocorreram no Triângulo das Bermudas e para aqueles que certamente ocorrerão, a Guarda Costeira americana tem pronta a mais pragmática das repostas (diga-se de passagem que o texto é a mesmo há mais de 30 anos):

"A Guarda Costeira não se impressiona com causas sobrenaturais para acidentes no mar. Faz parte da sua experiência reconhecer que as forças combinadas da natureza com a imprevisibilidade do homem superam a mais imaginativa ficção científica muitas vezes por ano."

Por fim, o golpe de misericórdia no mito: se o Triângulo das Bermudas fosse realmente uma área tão temerária à navegação e o número de acidentes ali, causados pelo clima, alienígenas ou outra coisa qualquer, fosse maior do que o de outras regiões de grande tráfego naval, as seguradoras cobrariam tarifas maiores sobre os navios que circulam na região. Mas isso não acontece. Contactada em 2000 a Lloyd`s of London declarou que não são cobrados valores maiores para os navios que circulam no Triângulo das Bermudas.

O Mar do Diabo
Algumas pessoas acreditam que o Triângulo das Bermudas não é o único lugar do mundo em que navios desapareceram em condições misteriosas. Muitos dizem que uma região à sudeste do Japão, conhecida por Mar do Diabo guarda sinistras semelhanças com a região das Bermudas, sendo tão temida pelos marinheiros quanto sua contra parte no oceano Atlântico.

O Mar do Diabo despontou no circuito paranormal depois do desaparecimento do navio de pesquisas Kaiyo Maru, em 1952. O Kaiyo Maru e seus 22 tripulantes, incluindo 9 cientistas japoneses, havia sido enviado para observar a erupção de um vulcão submarino no Pacífico quando desapareceu, provavelmente atingido pelas ondas violentas provocadas pela erupção. Três anos mais tarde um outro navio, o Shihyo Maru, perdeu o contato por rádio durante dez dias. A história terminou bem - o Shihyo Maru retornou são e salvo - mas nesse meio tempo o New York Times noticiou que "os pescadores da região (em que o Shyhyo Maru navegava) mencionavam que era como se o Diabo espreitasse à costa". E assim nascia a lenda do temível Mar do Diabo.

Pode-se dizer que o Mar do Diabo só sobrevive hoje às custas do Triângulo das Bermudas. Ao contrário deste, os únicos incidentes estranhos atribuídos ao Mar do Diabo aconteceram entre 1950 e 1954. Nada mais foi capaz de suscitar a fértil imaginação sobrenatural nos 30 anos seguintes. O pior é que ninguém avisou aos japoneses sobre o Mar do Diabo. Kusche contactou diversas agências e organizações japonesas e parece que ninguém jamais ouviu falar no Mar do Diabo por lá. Ironicamente, quem mais alimentou o mito do Mar do Diabo durante todos esses anos foi a própria Guarda Costeira americana. Como se não já não bastasse tentar atribuir os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas à trivial declinação magnética, por mais de trinta anos a Guarda Costeira manteve que:
A área conhecida por Mar do Diabo pelos pescadores japoneses e filipinos, também exibe as mesmas características magnéticas. A região também é conhecida pelos misteriosos desaparecimentos.

Ou seja, ao tentar desfazer um mito fizeram outro...

Conclusão
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