Projeto Ockham
Discursos Reversos Mensagens subliminares II: Os discursos reversos

por Widson Porto Reis mail
em 20/04/04

Os versos satânicos nos discos de rock (II)

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A conclusão é que não se pode negar que com uma boa dose de imaginação é possível encontrar palavras e até frases inteiras nos mal acabados fonemas de uma gravação ao contrário, mas há bons motivos para acreditar que isso é uma coisa muito mais natural do que parece. Imagine que você inverta as letras de um texto escrito. Fatalmente você vai encontrar, aqui e ali, sílabas e quem sabe até palavras inteiras formadas pelas letras ao contrário. É claro que as possibilidades em um texto escrito são limitadas e evidentemente não há espaço para especulação, vale o que está escrito. Mas agora extrapole esta idéia e imagine o imenso número de possibilidades que há quando se reverte os fonemas de uma música, com todas as entonações, sotaques, falsetes, pausas, respirações e tudo o mais que um cantor usa para se expressar. Some agora o poder da imaginação de quem está procurando pelas mensagens e você tem um belo campo para especulação. Na verdade, dadas as possibilidades, seria bem estranho se ninguém encontrasse mensagens inteligíveis em musicas tocadas ao contrário. O pesquisador canadense Jonh R. Vokey propõe uma experiência: grave a frase "Jesus Loves You" e a ouça de trás para frente. Você deve ser capaz de entender algo vagamente parecido com "We Smell Sausage" ("nós cheiramos salsicha"), especialmente depois de saber o que espera ouvir.

Mas se estas mensagens reversas não são nada mais que acaso fonético então por que há tantas mensagens tendo o demônio como tema? Por que ninguém encontra nas músicas de rock mensagens reversas com outras ideologias duvidosas? A resposta é: porque as pessoas estão procurando por mensagens demoníacas e não por outra coisa. Qualquer um que olhe para as nuvens do céu procurando por figuras de diabo provavelmente vai ver chifres e não orelhas de coelho nelas.

O que nos leva a outro pensamento. Normalmente quem está procurando por mensagens satânicas tem um prato cheio no rock (há mote mais anticristão que "sexo, drogas e rock and roll"?). Mas se as mensagens reversas são formadas ao acaso, não seria de se esperar que elas ocorressem em outros estilos musicais também? Será que alguém não poderia encontrar versos satânicos na música gospel se procurasse por isso? Pois foi o que fez John Kodiyil, da gravadora gospel Timbrels. Dois anos depois de encontrar Jesus, Kodiyil decidiu procurar por discursos reversos em suas próprias músicas e ficou chocado por encontrar em uma delas a frase: "Oh he is the way, Satan lives forever and ever" ("oh, ele é o caminho, Satã vive para sempre"), frase que evidentemente ele não havia gravado intencionalmente. Convencido de que discursos reversos não são intencionais, Kodiyil creditou o discurso satânico em suas músicas aos poderes das trevas que agiram à sua revelia (não somos experts no tema espiritual, mas desconfiamos que Satã poderia fazer um trabalho melhor, com versos mais nítidos e inspirados, se assim desejasse...). Infelizmente a mesma explicação não se revelou satisfatória quando Kodiyil encontrou em outra de suas músicas uma mensagem reversa glorificando Deus: "Eu não acho que Deus tenha qualquer coisa a ver com discursos reversos, mas não tenho explicação para porque eles estavam lá", concluiu o desnorteado Kodiyil.

A ONG Mensagem Subliminar também já encontrou discursos satânicos em músicas gospel, mas até agora nunca em mais de uma ou duas músicas por banda. De acordo com eles isso não caracteriza "uma vinculação séria com o mundo espiritual". Fica sem resposta a pergunta de qual a quantidade mínima de músicas por banda com trechos satânicos para caracterizar um pacto sério com o demônio. A ONG também não conclui como estas poucas mensagens satânicas foram parar nas músicas gospel.

Também há exemplos do uso de mensagens reversas em outras áreas. Em 2003 a promotora de Justiça do Consumidor Deborah Pierri, acatando denúncia da ONG Mensagem Subliminar, intimou a cervejaria Schincariol e a Fischer América Comunicação Total a dar explicações sobre o uso de mensagens subliminares em um dos comerciais da campanha "Experimenta" da Nova Schin (Revista Consultor Jurídico, 30 de setembro de 2003, disponível aqui). Na propaganda, alguém se aproxima do cantor Zeca Pagodinho e sussurra palavras incompreensíveis em seu ouvido. A ONG afirma que ao reproduzir o comercial de trás para frente, descobriu que as palavras eram: "tu experimenta isso aí agora cara, ou eu pego essa garrafa e enfio  no teu rabo!" (o trecho, supostamente invertido, pode ser ouvido aqui). O caso gerou furiosas discussões, uns chocados com o que  seria prática abusiva da companhia, outros aconselhando a ONG a ocupar o seu tempo de maneira mais útil. Infelizmente poucos fizeram a pergunta certa: "Afinal, o que diz a ciência?".

Mesmo que existam mensagens subliminares nos discos de rock ou comerciais de TV, mesmo que algumas sejam mais do que acidentes fonéticos, será que estas mensagens podem ser percebidas, ainda que em nível subconsciente, pelo ouvinte? Para responder a estas questões, em 1985 os pesquisadores Vokey e Read pediram a um grupo de voluntários que ouvissem três gravações ao contrário: uma leitura dos Salmos, a música "Another One Bites the Dust" do Queen (na qual se diz haver uma mensagem reversa dizendo "it's fun to smoke marijuana" ("é legal fumar maconha") e um trecho especialmente criado para o estudo ("Subliminal messages: Between the devil and the media" - Mensagens Subliminares: Entre o Demônio e a Mídia). Segundo o site Religious Tolerance, que traz os resultados da pesquisa, poucos conseguiram entender alguma coisa quando ouviram, por si mesmos, as gravações ao contrário. Somente quando lhes foi dito que frase procurar, 90% das pessoas conseguiram escutá-la. Os resultados de testes de múltipla escolha feitos logo após a audição mostraram que nenhum ouvinte conseguiu captar, conscientemente ou inconscientemente, qualquer mensagem escondida nos trechos ouvidos nem adivinhar sequer o tipo da mensagem escondida (cristã, satânica, pornográfica, etc...). O mais curioso é que de maneira geral as pessoas foram capazes de distinguir mensagens cristãs em trechos pornográficos tocados ao contrário tanto quanto identificar pornografia nos Salmos lidos ao contrário.

A conclusão é que procurar por palavras e frases em meio ao borrão sonoro de uma música tocada ao contrário não é diferente de vasculhar o céu à procura de figuras familiares nas nuvens - cada um enxerga o que está acostumado ou predisposto a ver. É claro que com alguma paciência, vez por outra o observador será brindado com uma nuvem realmente parecida com algo familiar, mas na maioria das vezes só o poder da sugestão, aliado à imaginação, poderá fazer com que duas pessoas enxerguem o mesmo.

O fenômeno de divisar uma forma distinta em um estímulo vago e indefinido é tão comum que possui um nome técnico: pareidolia. É o caso das pessoas que reconhecem o rosto de Jesus em tortillas, das diversas santas em janelas ou das imagens sexuais subliminares em peças publicitárias. Carl Sagan supunha que a pareidolia seria uma adaptação evolutiva que, há um milhão de anos atrás, teria dado vantagens às crianças mais capazes de reconhecer rapidamente um rosto humano. Seja como for, sabe-se que seres humanos são bons em reconhecer formas como linhas, círculos, sombras, etc, associando estas formas com seus desejos, interesses e obsessões. Os psicólogos aproveitam esta habilidade para diagnosticar certos desvios mentais com o (controverso) Teste de Rorschach, aquele com manchas simétricas, muito comum em testes psicotécnicos. Uma grande coleção de exemplos de pareidolia pode ser encontrada aqui.

Exemplo de pareidolia

É claro que a ciência não pode convencer a todos que versos satânicos são da mesma natureza que santas em janelas e acidentes geográficos peculiares. Mas pode provar, e já o fez, que estas mensagens reversas não têm o menor efeito em quem as ouve (aliás, nenhuma mensagem dizendo "compre agora" foi encontrada até hoje nos discos, o que mostra que os artistas também sabem disso).

Discursos reversos, a pseudociência
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