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por Ana Luiza Barbosa de Oliveira mail
em em 20/04/04

Investigando a grafologia

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O raciocínio ao qual os grafólogos se apegam é que a escrita é comandada pelo cérebro (em inglês "handwriting is brainwriting") e como o cérebro é a fonte da personalidade, logo a escrita reflete a personalidade. É verdade que a personalidade pode influenciar o desenvolvimento do potencial genético das habilidades motoras do ser humano. É fácil entender como fatores como ousadia, agressividade, persistência, vontade de participar em atividades em grupo determinam o quanto uma criança irá se desenvolver, tendo em vista a importância das habilidades motoras ensaiadas em grupo. O controle motor fino exigido para atividades como tocar um instrumento musical, tricotar ou escrever é um refinamento das habilidades motoras gerais e também vai depender de persistência e concentração. Então é de se esperar que pessoas perseverantes e com alta capacidade de concentração possuam boa caligrafia. E só. As correlações entre os aspectos gráficos da escrita como inclinação, pressão e gênese das letras e os aspectos individuais da personalidade precisam ser demonstradas através de estudos cientificamente rigorosos que sejam verificados independentemente.

Apesar da roupagem pretensamente científica que toda pseudociência possui, a grafologia se baseia no mesmo princípio do mais primitivo (e do mais atual) pensamento mágico: o princípio da similaridade. Encontramos o princípio da similaridade desde a homeopatia até às práticas de vodu, nas quais uma imagem de uma determinada pessoa é utilizada para influenciá-la positiva ou negativamente. Também é encontrado na astrologia, onde, por exemplo, pessoas do signo de Touro possuiriam as características deste animal, como a teimosia. Assim, na grafologia, para citar alguns exemplos, letras de pessoas raivosas apresentariam grande pressão e linhas retas, ao passo que amor é expresso através de letras curvilíneas e com leve pressão. A tristeza ou pessimismo seriam traduzidos por linhas descendentes, assim como otimismo por linhas ascendentes. Um punho inconstante com letras sendo desenhadas de forma diferente todo o tempo representaria pessoas "inconstantes". Aparentemente, características físicas como um gingado ao caminhar também aparece em uma escrita "gingada (The Complete Idiot's Guide to Handwriting Analysis, por Sheila R. Lowe).

Somente porque a lei da similaridade aparece como base de várias superstições e pseudociências, não significa que esteja sempre errada. Então necessitamos de estudos científicos para comprovar ou não se características da letra podem dizer algo sobre uma pessoa. Muitos grafólogos, quando perguntados sobre as evidências científicas que validam suas práticas, apresentam livros escritos por outros grafólogos que também não se baseiam em estudos científicos. Outro típico erro de avaliação é o famoso: "eu uso e dá certo comigo e meus clientes que nunca reclamaram". Se isto soa familiar é porque astrólogos e outros pseudocientistas usam este mesmo tipo de argumento.

Não podemos deixar de mencionar os mesmos fatores que parecem validar todas estas "metodologias de autoconhecimento": a leitura fria, através da qual o "analista" vai colhendo pequenas pistas para obter informações acerca desta pessoa sem que ela perceba (no caso da grafologia, as pistas são obtidas quando textos de caráter pessoal são utilizados nas análises); o efeito Forer, também conhecido como validação subjetiva, que faz com que as pessoas se reconheçam em descrições psicológicas vagas e abrangentes que poderiam ser aplicadas a qualquer um. Além destes, outros fatores fazem com que as pessoas acreditem que uma determinada descrição contém a verdade sobre sua personalidade. Um deles é falta de real autoconhecimento - você não está muito certo sobre suas características pessoais, logo você procura uma destas "metodologias para o autoconhecimento" e quaisquer características ditas como sendo suas serão aceitas, desde que não sejam muito excêntricas, tipo "você é um assassino em série em potencial, dadas as circunstâncias corretas você certamente irá matar alguém". Principalmente, porque as descrições apresentadas são vagas de forma que quase qualquer pessoa se encaixa.

Também é bastante comum a tentativa de validação da grafologia através do grau de satisfação dos gerentes de empresas com os empregados contratados através deste tipo análise. No entanto, para uma análise completa seria preciso analisar também o desempenho de um outro grupo - pessoas que foram reprovadas no teste da grafologia. Só assim seria possível confirmar que a análise grafológica é uma metodologia válida de seleção, pois talvez os gerentes ficassem ainda mais satisfeitos com este outro grupo. E como ter certeza que excelentes profissionais não estão deixando de ser contratados simplesmente porque sua assinatura não está de acordo com o que a escola daquele grafólogo segue? Afinal de contas, não existe um consenso entre eles.

Por exemplo, no livro de Peter West, "Grafologia", ele afirma que a uma barra do T minúsculo curta significa "falta de autocontrole; não gosta de disciplinas impostas", ao passo que Maurício Xandró em seu "Grafologia para Todos", explica que este mesmo tipo de barra "é um sinal de potência volitiva não isenta de autocontrole (...) há controle de si mesmo, esforço bem dirigido e domínio". Uma mesma pessoa teria avaliações completamente opostas!

No entanto, não é necessário se preocupar, basta descobrir a escola do grafólogo que presta consultoria para sua empresa (muitas fazem este tipo de consulta não só para a contratação como também para promoção de pessoal) e fazer algumas sessões de grafoterapia. Basicamente consiste em educar sua letra para deixar de fazer aquelas características negativas e assim, dizem os grafólogos, modificar a sua personalidade. Depressivo? Nada de Prozac! Basta copiar alguns textos com letras grandes em linhas ascendentes até que esse passe a ser seu tipo de letra. Fácil e barato.

Os grafólogos também alegam poder diagnosticar doenças como hipocondria, paranóia, esquizofrenia e depressão, mas não há estudos científicos publicados em revistas de renome, que suportem tais alegações. No entanto é possível encontrar anúncios de cursos de grafologia que dizem explicitamente que após a conclusão o aluno será capaz de realizar a "detecção de casos de hipocondria, depressão, pressão arterial, cleptomania e doenças de fins neurológicos". E que tal a seguinte descoberta de Maurício Xandró, apresentada em seu livro "Grafologia para Todos"? Ele afirma ser possível afirmar pela observação do seu D maiúsculo, se uma pessoa é crente ou atéia. Ele deixa claro que isto só é possível para aquelas em cuja língua mãe deus é iniciado pela letra D.

E que tal ser considerado, pelo mesmo autor, uma pessoa libidinosa, apresentando "sonhos eróticos, interesse por assuntos libidinosos ou pornográficos, procura por prazer sexual", só porque seu G minúsculo apresenta um "pé", a parte inferior, exagerada?

Pesquisa científica sobre grafologia
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