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Homeopatia Homeopatia

por Ana Luiza Barbosa de Oliveira mail
em 05/07/02

O ponto de vista bioquímico

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Quimicamente, os remédios homeopáticos são diluições tão extremas que sua composição não passa de solvente puro (água, álcool, etc) ou outro veículo qualquer no caso de comprimidos (usualmente lactose, um tipo de açúcar) ou outras apresentações. Os homeopatas partem de substâncias de origem vegetal, animal ou mineral, daí a confusão com um ramo da medicina de eficácia realmente comprovada, a fitoterapia, que utiliza extratos botânicos que contém princípios ativos que realmente tem efeitos terapêuticos.

Um extrato bruto é preparado e seguido de "dinamização", ou seja diluições sucessivas até que não haja sequer uma molécula de princípio ativo. Estas diluições são feitas da seguinte maneira: toma-se uma parte do extrato bruto e mistura-se a 9 ou 99 partes do solvente ou veículo. Esta etapa é repetida várias vezes e são chamadas de dinamizações. Estas dinamizações são indicadas pela "potência" do medicamento. A letra X indica diluições 1 para 10 e a letra C, 1 para 100. Desta forma, um medicamento 6X significa uma diluição de 1 para 1.000.000, por exemplo, um 1mL de extrato bruto para 1000 litros de água/álcool.

A maioria dos "medicamentos" é da ordem de 6X a 30X, mas alguns produtos são da ordem de até 30C, ou seja, a substância original sofreu uma diluição de 1 para 1060 (1 seguido de 60 zeros). Em outras palavras, é água pura. Se partíssemos de cerca de 1 gota de substância ativa o recipiente para fazer tal diluição teria que ter cerca de 10 bilhões de vezes o tamanho da Terra!!!. O princípio dos infinitesimais diz que se colocássemos uma gota de fel (uma substância muito amarga) em um recipiente deste tamanho e dele retirássemos uma gota, esta única gota conteria a essência do amargor.

Um remédio comercializado mundialmente conhecido como Oscillococcinum, é um produto 200C, utilizado para alívio de sintomas de resfriados e gripes. Seu "ingrediente ativo" é preparado da seguinte maneira: o coração e o fígado de um pato recém morto são incubados por cerca de 40 dias, o líquido resultante é filtrado, liofilizado, reidratado, "dinamizado" e impregnado em comprimidos de açúcar. A diluição, nestes caso é de 1 molécula de princípio ativo em 100200 (1 seguido de 400 zeros) moléculas, que é mais que todos os átomos existentes no Universo conhecido. Ou seja, os comprimidos são realmente "pílulas de farinha". Ainda, com apenas um pato é possível produzir todo o medicamento vendido no mundo em um ano, um faturamento de cerca 20 milhões de dólares. Até hoje somente um teste clínico foi realizado, de forma que os resultados são totalmente inclusivos, já que nenhum medicamento pode ser considerado eficaz após ser aprovado em apenas um teste [1].

Os homeopatas dirão que a idéia é realmente atingir uma diluição tão alta que não reste nenhuma molécula do princípio ativo, já que Hahnemann acreditava que o processo de diluição que envolve intensa agitação ou maceração deixava para trás uma essência, imperceptível para os sentidos, mas capaz de revitalizar a força vital do corpo. Entretanto, estas noções não têm embasamento científico nenhum e nunca foram comprovadas por investigadores independentes. Mais do que isso, se a teoria de Hanhnemann fosse verdadeira, este fenônemo de transmissão da energia de uma molécula deveria se apresentar em inúmeros outros casos, além da preparação de remédios homeopáticos, o que também nunca foi observado. Algumas perguntas que surgem imediatamente são:

Por que esta transmissão de energia inclui somente os efeitos terapêuticos do princípio ativo, e não seus efeitos colaterais?

Por que esta transmissão não ocorre também com outras substâncias com as quais a solução tem contato durante a sua preparação? Por mais cuidado que se tenha na sua preparação, as soluções serão sempre contaminadas, em menor ou maior grau, por um enorme número de substâncias presentes no ambiente. Como o efeito destas substâncias se "perde"?

A teoria homeopática diz que a "energia" do princípio ativo é transmitida para a solução durante o processo de diluição. Mas e quanto às pílulas, que consistem principalmente de lactose? Mesmo que acreditemos, por um instante, na transmissão de energia para uma solução, como essa energia é transferida para o açúcar?

De qualquer forma, mesmo que a teoria de Hahnemann não tenha fundamento, é concebível que os remédios homeopáticos sejam eficazes, agindo por algum outro mecanismo desconhecido. O verdadeiro teste da eficácia deste tipo de remédio consiste, portanto, na realização de estudos experimentais adequados. Infelizmente, os resultados dos estudos realizados até agora também não indicam um efeito terapêutico significante dos remédios homeopáticos.

1. Ferley JP, Zmirou D, D'Adhemar D, Balducci F. A controlled evaluation of a homeopathic preparation in influenza-like syndromes. Br J Clin Pharmac 1989) 27, 329-335. (abstract)

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