Projeto Ockham
Radioestesia Radioestesia

por Ana Luiza Barbosa de Oliveira mail
em 01/06/02

O que dizem os céticos

Fórum Enviar artigo

Tábua Ouija A explicação dada pelos céticos para os fenômenos da radioestesia baseam-se no chamado efeito ideomotor, isto é, a "influência da sugestão na modificação e direcionamento do movimento muscular, independente de volição [vontade consciente]", identificado pelo psicólogo e fisiologista William B. Carpenter em 1852. Carpenter mostrou que vários fenômenos sobrenaturais possuíam uma prosaica explicação científica. Ele não negou a existência do fenômeno, nem a honestidade das pessoas envolvidas, mas apresentou uma explicação não paranormal para fenômenos como radioestesia, pêndulos e tábuas Ouija (mesa onde se pratica a "brincadeira" ou "jogo" do copo): minúsculos movimentos musculares inconscientes, produzidos por sugestão, eram responsáveis pelo movimento dos objetos envolvidos.

Apesar deste fenômeno ser conhecido e descrito ao longo de um século e meio, muitas pessoas, inclusive cientistas, o desconhecem. Apesar de ser o próprio operador que move as varinhas, pêndulos, etc, ele próprio não está consciente e atribui o fato a forças externas, radiações ou outras emanações. É interessante notar que mesmo estando consciente do efeito ideomotor, as pessoas ainda experimentam suas conseqüências, tendo em vista que ele é independente de vontade consciente.

Michael Faraday Enquanto W.B. Carpenter estudava o efeito ideomotor, Michael Faraday se dedicava ao estudo de uma de suas "aplicações" mais famosas. Faraday era um físico e químico inglês (1791-1867) mais conhecido por seus experimentos pioneiros em eletricidade e magnetismo. Considerado por alguns o maior experimentador da história da ciência, criou dispositivos que viriam a dar origem ao motor elétrico, ao gerador e ao transformador. Faraday se interessou por um fenômeno conhecido como table-turning, que era uma febre entre os parapsicólogos americanos e europeus na década de 1850. Neste fenômeno, um grupo de pessoas sentava-se a uma mesa com suas mãos apoiadas sobre ela e, após algum tempo de espera, a mesa inclinava-se sobre uma de suas pernas, chegando a mover-se pela sala ou até mesmo, segundo alguns relatos, a levitar. Este fenômeno é considerado o primeiro a atrair cientistas para a análise de manifestações supostamente paranormais. Faraday elegantemente provou que o movimento da mesa era o resultado de sutis forças aplicadas inconscientemente pelos participantes. Para isto, Faraday colocou uma pilha de folhas de papelão cobrindo o tampo da mesa, presas por elásticos que permitiam um pequeno movimento relativo entre elas. Os participantes colocavam suas mãos sobre a pilha de forma que a origem do movimento podia ser identificada pela forma como as folhas eram deslocadas. Por exemplo, se a mesa se movesse para a esquerda e o movimento realmente partisse da mesa, as folhas formariam uma "escada", subindo da esquerda para a direita, já que a folha em contato com a mesa seria a primeira a se mover, seguida gradualmente pelas folhas seguintes até a folha de cima, que seria retardada pelo atrito com as mãos dos participantes. Na verdade, o que acontecia era exatamente o oposto, isto é, a folha de cima apresentava o maior deslocamento, indicando que o movimento partia dos participantes.

O professor emérito de psicologia da Universidade de Oregon, Ray Hyman, tem se dedicado ao estudo e ensino da psicologia da crença e auto-ilusão, além de conduzir estudos críticos detalhados sobre experimentos parapsicológicos. Ele realizou um experimento para ilustrar como funciona o efeito ideomotor, demonstrando como a sugestão associada ao efeito ideomotor podem levar as pessoas a realmente crerem que alguma força externa é responsável pelo movimento de varinhas de radioestesia. A um grupo de estudantes ele demonstrou o princípio de funcionamento das varinhas de radioestesia em L. Ele andou pela sala e fez com que as varinhas se cruzassem em um determinado ponto, ao se afastar deste ponto, fez as varinhas voltaram à posição original. Então ele falou para os estudantes que aquele era um ponto onde possivelmente se encontrava uma tubulação de água. Em seguida, ele pediu que cada estudante repetisse o experimento e quase todos experenciaram uma força desconhecida que fazia com que a varinha se cruzassem exatamente onde eles esperavam que isto ocoresse conforme sugestão de Hyman. O experimento foi repetido com outro grupo, mas Hyman fez com que as varinhas se cruzassem em outro ponto da sala, e novamente os estudantes relataram uma força externa que movia as varinhas no exato ponto onde eles acreditavam que elas se cruzariam.

Aqueles que acreditam na radioestesia dirão que o efeito ideomotor pode não ser aleatório e a resposta associada a ele é fruto do ambiente, das radiações etc. O seguinte estudo mostra que este não é o caso. Em 1986, o governo alemão deu 250 mil dólares para os físicos da Universidade de Munique verificarem se a radioestesia era um fenômeno paranormal. Os pesquisadores planejaram um experimento cuidadoso a fim de averiguar a capacidade dos radioestesistas de encontrar tubulações de água dentro de um depósito nos arredores de Munique. Os 500 radioestesistas convidados passaram por um teste preliminar para selecionar os 43 mais habilidosos. Para verificar a habilidade dos radioestesistas em encontrar água corrente, foi estabelecida no depósito uma linha de teste de 10 metros e no subsolo foi colocado um vagão que permitia mover ao longo da linha de teste uma tubulação conectada a uma bomba através de mangueiras. Os radioestesistas tinham que indicar onde se encontrava a tubulação e todos concordaram que esta era uma tarefa condizente com suas habilidades. O estudo também envolveu milhares de testes preliminares, cujo objetivo era eliminar os candidatos sem talento algum e ajustar as condições do experimento de forma a que cada radioestesista trabalhasse em condições de melhor resposta. Assim foram feitos testes com água corrente, parada, sem água, com água salgada ou água contendo areia ou cascalho, fluxo turbulento ou não, e cada radioestesista escolheu as condições que considerava ideais. Além disso, antes de cada experimento, os radioestesistas faziam uma varredura do depósito para verificar se havia alguma fonte de radiação que pudesse atrapalhar os testes; em caso positivo, o local era excluído como possível ponto para localização da tubulação. (Interessante notar que os locais das fontes de interferência eram diferentes de acordo com o radioestesista). Foram conduzidos um total de 843 testes durante dois anos e os dados obtidos mostraram resultados totalmente randômicos, ou seja, os radioestesistas estavam apenas adivinhando onde estava a tubulação. Apesar de alguns testes individuais apresentarem resultados acima do esperado para pura adivinhação, o radioestesista em questão não era capaz de repetir uma série tão boa. Eventos fora do comum são pouco prováveis, mas não são impossíveis, e a indicação de algo sobrenatural estaria no fato da pessoa repetir algumas séries com resultados extraordinários, o que não foi o caso.

As figuras abaixo mostram o que se esperaria de radioestesistas com uma boa habilidade (uma relação clara entre seus resultados e a localização dos alvos) e o resultados reais do teste (totalmente aleatórios).

Gráfico 1 Gráfico 2

Conclusões
Cadastre seu email para receber nosso boletim:
Pipoca com Ciência

Dragão da Garagem