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por Widson Porto Reis mail
em 23/01/04

O que NÃO é subliminar?

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Subliminar significa "abaixo do limiar de percepção". Simples assim. Um som numa freqüência mais alta do que o ouvido pode escutar ou uma imagem tão rápida que o olho não possa captar são exemplos de estímulos subliminares.

Mas uma definição tão simples nos deixa um problema: se um estímulo subliminar, portanto indetectável, é detectado pelo observador (ainda que inconscientemente) ele deixa de ser classificado como subliminar. Ou seja, qualquer efeito atribuído a um estímulo subliminar torna-se impossível por definição.

De fato esta foi a definição utilizada pelos primeiros estudiosos que estudaram o tema no final do século XIX, mas as coisas não são tão simples. Os psicólogos sabem hoje que a percepção de um estímulo (isto é, ver algo e saber que viu) depende de fatores psicológicos e sociais tanto quanto de fatores fisiológicos. Alguém pode ver alguma coisa e simplesmente não se sentir confiante o suficiente de ter visto. Assim, em vez de uma linha separando o que está abaixo do limiar de percepção do que está acima, os psicólogos falam em uma faixa de percepção: acima do limite superior, chamado de limiar subjetivo, as pessoas são capazes de notar claramente um estímulo; abaixo do limite inferior, chamado de limiar objetivo estão os estímulos que não podem ser percebidos de maneira nenhuma; abaixo do limiar subjetivo, mas acima do limiar objetivo as pessoas percebem os estímulos mas pensam que não perceberam. Com isso, um estímulo subliminar passa a ser considerado um estímulo percebido, mas não reportado.

E aí começa a confusão... A maioria dos sites sobre o assunto não só misturam todos os tipos de mensagens subliminares (subjetivas e objetivas, visuais e auditivas) num mesmo balaio, atribuindo a todas elas poderes fantásticos de persuasão, como ainda acrescentam ao saco inúmeras coisas que não tem absolutamente nada de subliminar.

Um dos maiores sites nacionais sobre mensagens subliminares é o portal da Organização Não Governamental de Estudos e Pesquisas em Mensagem Subliminar. Este site é o ponto de partida para qualquer pesquisa que se faça sobre o assunto em língua portuguesa. Ironicamente, muito pouco do que se diz no site tem realmente a ver com mensagens subliminares, na acepção correta do termo.

cartão de Natal Para início de conversa esta ONG considera qualquer imagem que esteja num segundo plano como subliminar. Claro que a primeira regra para uma imagem ser subliminar é não ser vista, mas a ONG parece ignorar completamente este fato. Um dos exemplos é o "inocente cartão de Natal" da figura. Por causa das folhas de maconha estampadas no fundo, o Professor Vicente, presidente da ONG, diz haver uma referência subliminar à maconha. Para nós é difícil imaginar uma mensagem mais clara do que esta.

Na verdade, os organizadores deste site julgam como subliminar tudo o que não é percebido imediatamente, ou seja, usam a palavra subliminar como sinônimo de subentendido. O mais grave é que devem possuir um limite de percepção extremamente estreito para considerar como subliminares coisas como a tirinha do Horácio (abaixo), em que as montanhas têm a forma de uma mulher (que por sinal é a graça da piada), e a capa da revista Istoé, que propositalmente dispôs o texto de forma fálica numa matéria sobre o Uprima, um remédio para impotência.

Horácio Isto É

Na tirinha o texto diz "não sei o que deu em você, que só quer dormir no alto daquela montanha, Horácio". Horácio responde "Nem eu, mas eu acordo tão bem, tão revitalizado!".

Imagine como ficariam frustrados os idealizadores destas elaboradas "gags" ao saberem que algumas pessoas as consideram abaixo do limiar de percepção!

O Dr. Flavio Mário Calazans, autor do livro "Propaganda Subliminar Multimídia" considera até o merchandising das novelas, aquele que um personagem bebe uma cerveja com o rótulo "casualmente" voltado para câmera, como mensagem subliminar (ora, se o merchandising está sendo visto não é subliminar!). Professor Calazans vê mensagens subliminares no tom de voz usados pelos atores de novela, nas cores da rede de lanchonetes MacDonald's (o vermelho estimularia a fome, segundo ele - no que mistura o assunto com a pseudociência da cromoterapia) e até nas figuras de linguagem usadas na conversas do dia a dia. Porém nada disso é classificado como subliminar na literatura científica - nem na psicologia, nem na publicidade - conforme resumem Martha Rogers e Christine A. Seiler, PhDs em Marketing, no artigo "The Answer Is No: A National Survey of Advertising Industry Practitioners and Their Clients about Whether They Use Subliminal Advertising", publicado no Journal of Advertising Research:

"(...) a maioria dos que dizem ter conhecimento do uso de mensagens subliminares em propagandas, na verdade não compartilha um conhecimento científico ou técnico do conceito de propaganda subliminar. Eles parecem possuir uma opinião popular de que qualquer elemento subentendido usado em propagandas (como cores, certos tipos de indíviduos usados para representar conceitos publicitários, etc) representam ‘propaganda subliminar’, quando na verdade estes elementos subentendidos não estão incluídos na discussão técnica de propaganda subliminar."

As falhas de metodologia científica nos trabalhos de Calazans são gritantes. Por exemplo, sobre o episódio do Pokemon que causou ataques epilépticos em crianças no Japão em 1997, Calazans afirma:

"As cores em seqüência piscadas: vermelho, branco e azul, nesta velocidade , causam o curto-circuito epilético, pois o vermelho (760 nanômetros) ondas longas, acelera batimento cardíaco e eleva a pressão sangüínea, libera adrenalina; o azul (450 nanômetros) ondas curtas, reduz a pressão sistólica, acalma e relaxa, este dilema subliminar de mensagens com efeitos opostos gera o efeito epilético chegando a alterar a química do sangue (...)."

Tantas informações duvidosas (misturadas com outras absolutamente fora de contexto) e nem uma única referência científica para suportá-las. Mas o experimento do cinema de James Vicary, este é citado, e como! Calazans chega a classificá-lo como um dos três acontecimentos mais importantes da mídia do século XX. Infelizmente o doutor não informa aos seus leitores e aos assistentes de suas palestras (pelas quais cobra, segundo seu site, 1000 dólares mais despesas) é que o experimento foi uma farsa confessada pelo próprio autor.

Se estivessem simplesmente confundindo alhos com bugalhos, estes sites seriam inofensivos. Porém, com o experimento forjado por Vicary na ponta da língua e seguindo à risca a cartilha paranóica de Wilson Key, muitos creditam a estas mensagens, que nada tem de subliminares, poderes praticamente sobrenaturais.

Um exemplo bíblico: a ONG Mensagem Subliminar afirma que a primeira referência às mensagens subliminares foi feita por Moisés no livro do Gênesis. O Professor Vicente conta a história do pastor de ovelhas Jacó que, após trabalhar vários anos de graça para seu tio, Labão, firma com ele o seguinte acordo: todas as ovelhas dali por diante que nascessem com peles malhadas seriam de Jacó, enquanto aquelas de pele lisa seriam do tio. O acordo era claramente desfavorável a Jacó, já que o nascimento de ovelhas malhadas é evento muito mais raro que de ovelhas lisas, mas, inspirado divinamente, Jacó espalha nos locais em que as ovelhas bebiam água, varas de álamo, aveleira e castanheiro, descascadas de maneira a lembrarem listras e malhas. Diz o livro do Gênesis: "E concebia o rebanho diante das varas e as ovelhas davam crias listradas, salpicadas e malhadas" (Gen.30.39). Segundo a Bíblia, com este artifício divino, Jacó logo se tornou um dos homens mais prósperos de sua região. Bem, e onde se encaixam as mensagens subliminares? Segundo o professor Vicente "as (ovelhas) prenhas, quando bebiam água nos bebedouros, registravam a imagem das varas à sua volta, repetidas vezes durante o dia, apenas na visão periférica, ou seja, a imagem das cercas, não era focada conscientemente. Esses estímulos subliminares, eram remetidos diretamente ao ventre das fêmeas, interferindo na formação genética dos embriões. O professor Vicente prossegue dizendo que: "A medicina moderna tem confirmado fatos semelhantes ocorridos com mulheres que no período da gestação tem uma afinidade muito grande com certos animais de estimação, objetos ou frutas e que, quando dão à luz, alguns sinais ou manchas associadas a estes elementos, acabam impressos na pele da criança". Com este testemunho, excluímos a possibilidade do professor Vicente dar aulas de Medicina.

Até aqui já mostramos como a experiência de Vicary não passa de uma lenda urbana e que a maior parte do que os sites populares escrevem sobre o assunto não trata de mensagens realmente subliminares. Mas o que dizer das mensagens subliminares genuínas? Será que estas mensagens imperceptíveis, passando diretamente pelos filtros da nossa mente consciente, são capazes de influenciar nosso comportamento? E funcionando ou não, será que mensagens subliminares estão deliberadamente sendo usadas pela mídia para controlar nosso bolso e nossa mente?

Ok. Hora de ouvir a ciência. E também as agências de publicidade.

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