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por Widson Porto Reis mail
em 23/01/04

Fitas de auto-ajuda

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Você coloca a fita no toca-fitas do carro e enquanto dirige para o trabalho relaxa ao som de suaves barulhinhos de água correndo, chuva caindo, pássaros cantando, ondas do mar, etc. Mas por detrás destes sons, gravada de maneira totalmente imperceptível para o ouvido humano, há uma voz repetindo mensagens como: "eu estou me sentindo saudável e vibrante", "eu gosto de comer vegetais frescos", "eu tenho uma barriga firme e disposição para fazer exercícios", "eu sou um poderoso imã para o sexo oposto" e por aí vai. Há fitas para o inimaginável: desenvolver a acuidade visual, aumentar a habilidade em basquete, golfe ou tênis, e até mesmo fitas que prometem auxiliar o ouvinte a regredir a vidas passadas. E quando você pensa que já viu de tudo, descobre que há fitas auditivas para curar... surdez!

É claro que em plena era digital, as velhas fitas cassetes evoluíram; hoje vende-se CDs, arquivos MP3 e até mesmo softwares do tipo "faça você mesmo" que permitem ao usuário criar fitas personalizadas para atingir as metas que desejar. A despeito do imenso comércio em torno das fitas de auto-ajuda (segundo a revista Newsweek em 1990 havia 2000 fabricantes de fitas movimentando um negócio de 50 milhões de dólares), todos os trabalhos científicos que já se fez até hoje sobre elas concluem: mensagens subliminares gravadas em fitas de auto-ajuda não têm absolutamente nenhum efeito sobre quem as ouve.

Por exemplo, no artigo "Subliminal Self-help Auditory Tapes: An Empirical Test of Perceptual Consequences" (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares: Um Teste Empírico de Conseqüências Perceptivas, disponível aqui, o autor Timothy E. Moore pediu a 53 pessoas, que haviam escutado fitas de auto-ajuda contendo mensagens subliminares, que marcassem num teste de múltipla escolha o que havia sido dito nas fitas. O resultado foi o mesmo de alguém que chutasse todas as respostas. Ou seja, as mensagens subliminares não atingiram nem conscientemente nem inconscientemente as pessoas que as escutaram.

Mas há quem possa advogar a idéia de que mesmo que as mensagens subliminares não sejam captadas pelo cérebro ainda assim possam exercer algum efeito sobre as habilidades motoras, sobre a autoconfiança ou sobre o peso corporal de quem as ouve. No artigo "Subliminal Self-Help Audiotapes, A Search for Placebo Effects" (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares, Procurando por Efeitos Placebo) o pesquisador Philip Merikle testou fitas de auto-ajuda para emagrecimento. Para isso usou três grupos de 15 mulheres acima do peso; todas acreditavam na eficiência das fitas de auto-ajuda. Um dos grupos ouviu fitas contendo mensagens subliminares para emagrecimento, outro grupo ouviu fitas indistinguíveis das primeiras mas que continham mensagens subliminares para perder o medo de dentista e o terceiro grupo não ouviu fita nenhuma. O teste foi feito usando o método de duplo-cego, ou seja, nem o pesquisador nem as mulheres sabiam que fitas estavam ouvindo. Ao final de cinco semanas as mulheres dos três grupos mostraram perda equivalente de peso.

Como nota o autor da pesquisa, há diversos trabalhos que sugerem que fitas de auto-ajuda podem funcionar sim, por efeito placebo (afinal não se pode ignorar que as fitas possuem legiões de clientes satisfeitos). Ou seja, é provável que você realmente consiga perder alguns quilos escutando estas fitas se realmente acreditar que elas são capazes disto (regredir a vidas passadas ou curar surdez, no entanto, são outra história). Mas é bom deixar bem claro que as mensagens subliminares nelas não terão absolutamente nenhuma influência sobre seu emagrecimento (isso se houver alguma mensagem subliminar na fita! Pois Merikle também analisou o espectro sonoro de diversas fitas e não encontrou nenhum traço de mensagem por detrás das músicas. Ou os fabricantes nem se dão ao trabalho de gravar algo que por definição não deve ser escutado pelo ouvinte ou as mensagens eram subliminares até para os aparelhos!).

Existe uma diferença fundamental entre as mensagens subliminares auditivas e mensagens subliminares visuais, que por ignorância ou má-fé são completamente ignoradas pelos vicaristas (não trocamos nenhuma letra não, são chamados assim os que acreditam no "Experimento Pipoca" de James Vicary). Para tornar uma imagem subliminar não é necessário alterar a imagem fisicamente nem a maneira como ela atinge nossos sentidos, basta diminuir o seu tempo de exposição. Já para tornar um som subliminar é preciso gravá-lo num volume muito baixo e enterrá-lo sob camadas e camadas de outros sons. Acontece que para ser percebido, o som, que nada mais é que uma onda de pressão causada pelo deslocamento de ar, precisa ter energia suficiente para fazer vibrar o tímpano - uma membrana do interior do ouvido - o que um som subliminar por definição não tem. Afirmar que alguém pode ouvir, mesmo inconscientemente, um som escondido em uma fita de auto-ajuda é o equivalente sonoro de dizer que uma princesa pode sentir uma ervilha debaixo de uma pilha de colchões (como naquela fábula de Hans Christian Andersen).

Se você quer saber mais, uma boa revisão bibliográfica dos experimentos feitos até 1993 sobre fitas de auto-ajuda pode ser encontrada no artigo "Subliminal Self-help Tapes: Promises, Promises? (Fitas de Auto-Ajuda Subliminares, Promessas, promessas?)" de Beyerstein e Eich.

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